Busca de sinais digitais sobre Síndrome de Koro em Moçambique

Fontes abertas, cobertura de Internet e limites de vigilância baseada na web

Raphael Saldanha | Observatório de Clima e Saúde | Fiocruz

2027-02-05

Fontes oficiais do governo

Não há sinal claro de uma base pública oficial específica sobre Koro.

MISAU / SIS-MA
Sistema nacional de informação em saúde, baseado em DHIS2, com dados agregados, vigilância e módulos de programas.

INS / vigilância
Instituto Nacional de Saúde, SIGILA e unidades de inquéritos/vigilância para eventos laboratoriais e epidemiológicos.

INE
Censos, projeções, estatísticas provinciais e denominadores populacionais para interpretar desigualdades territoriais.

INCM / INTIC
Regulação, qualidade de telecomunicações, indicadores TIC, cobertura e governança digital.

Acesso à Internet: base nacional

  • Em outubro de 2025, Moçambique tinha cerca de 7,12 milhões de usuários de Internet, com penetração de 19,8%; 80,2% da população seguia offline segundo o DataReportal.
  • Havia 19,1 milhões de conexões móveis celulares, equivalentes a 53,1% da população; nem toda conexão móvel inclui dados.
  • A população era majoritariamente rural: 60% rural e 40% urbana em 2025.
  • A Internet Society estima penetração nacional próxima de 21% e registra, em dados comparáveis de 2017, forte desigualdade urbano-rural: 18% urbana versus 3% rural.

Implicação para Koro: sinais digitais tendem a super-representar centros urbanos, homens, pessoas com maior renda/escolaridade, usuários de smartphone e áreas cobertas por operadores móveis.

Cobertura regional: leitura operacional

Mapa de Moçambique com classificação operacional de sinal digital esperado por província.

Norte
Niassa: muito baixo. Cabo Delgado: muito baixo e instável. Nampula: médio nos centros urbanos, baixo no interior.

Centro
Zambézia e Manica: baixo fora dos centros. Tete e Sofala: médio em corredores urbanos, mineração e Beira; baixo no interior.

Sul
Gaza: baixo fora de Xai-Xai. Inhambane: médio em centros e áreas turísticas. Maputo província e Cidade de Maputo: maior sinal digital.

Redes sociais e acesso a dados

Em 2025, as maiores audiências observáveis por ferramentas de publicidade eram:

Facebook
4,10 milhões de usuários; principal plataforma para busca ampla e grupos locais.

TikTok
3,70 milhões de adultos alcançáveis por anúncios; útil para vídeos curtos, rumor e linguagem popular.

Instagram / LinkedIn / X
729 mil, 880 mil membros e 150 mil usuários, respectivamente; mais segmentados.

Restrições práticas

  • WhatsApp é provavelmente central para circulação local, mas é fechado, criptografado e sem API pública adequada para leitura de grupos.
  • Facebook/Instagram exigem caminhos controlados, como Meta Content Library/API para pesquisadores elegíveis.
  • TikTok Research API requer aprovação e impõe critérios e cotas.
  • YouTube é mais acessível via API, mas tem cotas e viés para conteúdo público indexado.
  • Durante a crise pós-eleitoral de 2024, houve evidências de bloqueios ou limitações a Facebook, Instagram e WhatsApp em alguns provedores.

GDELT como camada de notícias

GDELT é uma base global de notícias online: monitora matérias publicadas na web, identifica eventos, temas, atores, lugares e disponibiliza consultas por API.

Para Koro em Moçambique, funciona como camada de imprensa e web aberta, não como vigilância de casos.

Possibilidades

  • buscar Koro, variantes locais e termos associados;
  • filtrar por Moçambique, províncias e janelas curtas;
  • gerar séries temporais, alertas e mapas;
  • combinar stories e events.

Limitações

  • depende de fontes jornalísticas indexadas;
  • perde WhatsApp, rádio, línguas nacionais e relatos orais;
  • geocodificação e classificação podem errar;
  • rumor, violência e saúde podem se misturar.

Uma possível estratégia

1. Vocabulário vivo
Começar com Koro e expandir termos por província, idioma, metáforas locais e expressões usadas pela imprensa e redes.

2. Fontes em camadas
GDELT + busca web + páginas públicas + TikTok/YouTube + imprensa local + fontes institucionais e humanitárias.

3. Triangulação territorial
Separar Maputo/sul urbano, centros de Nampula/Zambézia e norte rural/conflito para não confundir silêncio digital com ausência de evento.

4. Ética e segurança
Evitar identificação de pessoas e comunidades; tratar rumores como risco social, não como confirmação clínica.

Principal conclusão: buscar Koro na Internet em Moçambique é menos uma pergunta sobre “onde há casos” e mais uma pergunta sobre onde há sinal digital observável.

Fontes principais

Fontes técnicas e abertas