Metodologias e impactos das mudanças climáticas sobre a saúde de corpos e territórios na Amazônia

Dados territoriais, monitoramento comunitário e AlertAr Saúde

Raphael Saldanha | Observatório de Clima e Saúde | Fiocruz

2026-12-05

Uma pergunta para começar

Quais sinais da mudança climática aparecem no território antes de aparecerem nos dados oficiais?

Pode ser a fumaça chegando, o rio baixando, a água mudando, o calor ficando insuportável, a escola suspendendo atividades ou a UBS recebendo mais pessoas com sintomas respiratórios.

A proposta é aproximar os dados produzidos pelo Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz com os saberes e práticas de monitoramento territorial independente.

Impactos

As mudanças climáticas não afetam apenas o ambiente: elas atravessam corpos, modos de vida e territórios.

Para agir, precisamos combinar:

Dados públicos
clima, ar, ambiente e saúde

Monitoramento territorial
saberes locais e vigilância popular

Ferramentas abertas
mapas, alertas e evidências

Amazônia: eventos climáticos e cotidiano

Esquema de eventos climáticos na Amazônia e efeitos no cotidiano

Por que falar de clima e saúde na Amazônia?

A Amazônia concentra processos que se sobrepõem:

  • queimadas, fumaça e poluição do ar;
  • secas severas e seca dos rios;
  • cheias, enchentes e inundações;
  • calor extremo e noites quentes.
  • alteração do acesso à água e aos alimentos;
  • isolamento de comunidades;
  • pressão sobre territórios e modos de vida;
  • interrupção de escola, trabalho, transporte e cuidado.

Esses eventos afetam a saúde por caminhos diretos e indiretos: respiração, calor, água, alimentação, deslocamento, acesso aos serviços, saúde mental e organização comunitária.

Saúde de corpos e territórios

Corpos adoecem quando territórios são degradados; territórios adoecem quando águas, florestas, caminhos, redes de cuidado e modos de vida são interrompidos.

Corpos sentem a fumaça, o calor, a água contaminada, o medo, a perda e o esforço de viver em condições adversas.

Territórios registram mudanças no rio, na floresta, no ar, nos alimentos, na circulação e nos serviços.

Monitorar é transformar sinais do território em informação para proteger vidas e direitos.

Observatório de Clima e Saúde

  1. produzir dados territoriais sobre clima, ambiente e saúde;
  2. transformar dados em indicadores compreensíveis;
  3. disponibilizar sistemas de visualização e alerta;
  4. apoiar pesquisa, gestão pública, comunicação de risco e monitoramento comunitário;
  5. construir pontes entre dados técnicos e evidências produzidas pelos territórios.

Como atuamos

1. Coleta e integração
Bases públicas, sensoriamento remoto, reanálises climáticas, modelos atmosféricos e sistemas de saúde.

2. Territorialização
Transformação de grades climáticas e atmosféricas em indicadores por município, região ou recorte territorial.

3. Indicadores
Calor, chuva, seca, umidade, qualidade do ar, população exposta e agravos à saúde.

4. Sistemas e comunicação
Mapas, gráficos, painéis, relatórios, cursos, notas técnicas e alertas.

Alguns dados que produzimos

Clima
Temperatura, chuva, umidade, ondas de calor, noites quentes, estiagens e eventos extremos.

Qualidade do ar
PM2.5, PM10, ozônio, NO₂ e SO₂, com histórico e previsão para municípios brasileiros.

Saúde e população
Hospitalizações, mortalidade, doenças sensíveis ao clima, denominadores populacionais e indicadores territoriais.

Esses dados são organizados para apoiar mapas, séries temporais, indicadores de risco e estudos sobre desigualdades territoriais em saúde.

Metodologia de monitoramento

1. Dados climáticos e atmosféricos
ERA5-Land, CAMS, satélites, modelos e previsões.

2. Dados de saúde
Sistemas do SUS, hospitalizações, mortalidade, agravos e indicadores populacionais.

3. Indicadores territoriais
Eventos extremos, exposição, vulnerabilidade, acesso a serviços e desigualdades.

4. Ferramentas e uso social
AlertAr Saúde, mapas, boletins, cursos, protocolos e comunicação acessível.

Da experiência no território à ação

Fluxo problema no território, dado produzido, indicador, ferramenta e ação comunitária

Temas e indicadores prioritários

Tema Indicadores possíveis Perguntas para o território
Fumaça e ar PM2.5, PM10, previsão de poluentes Quando a fumaça chega? Quem precisa ser protegido primeiro?
Calor dias quentes, ondas de calor, noites quentes Quais grupos sofrem mais? Há locais de abrigo e hidratação?
Seca chuva acumulada, dias secos, umidade Como muda o acesso à água, alimento, transporte e cuidado?
Cheias chuva extrema, áreas alagadas, acesso a serviços Quem fica isolado? Quais serviços são interrompidos?
Saúde internações, sintomas, doenças infecciosas O evento climático aparece nos dados de saúde e nos relatos locais?

Ferramentas e publicações

Ferramentas e bases

  • AlertAr Saúde: previsão e acompanhamento da qualidade do ar;
  • Mapas do Observatório: indicadores climáticos, ambientais e de saúde;
  • {climindi}: indicadores climáticos baseados em eventos;
  • {rpcdas}: acesso programático a dados de saúde da PCDaS;
  • bases municipalizadas de clima, umidade, chuva e poluição.

Produtos e formação

  • artigos científicos e manuscritos em desenvolvimento;
  • notas técnicas e relatórios;
  • cursos, disciplinas e oficinas;
  • materiais de comunicação e apoio à decisão;
  • diálogo com redes, gestores e territórios.

AlertAr Saúde: o que é

Sistema de alerta precoce sobre poluição do ar e efeitos na saúde para municípios brasileiros.

O sistema permite acompanhar:

  • situação atual e previsão da qualidade do ar;
  • deslocamento de poluentes;
  • mapas e gráficos por município;
  • previsão com horizonte de até 120 horas.
  • PM2.5 e PM10;
  • ozônio;
  • dióxido de nitrogênio;
  • dióxido de enxofre;
  • apoio à comunicação de risco.

AlertAr Saúde na prática

Mockup didático do sistema AlertAr Saúde

Exemplo: episódio de fumaça em um município amazônico

Antes
O AlertAr indica aumento de PM2.5 nos próximos dias. Lideranças e equipes locais observam fumaça, baixa visibilidade e relatos de irritação nos olhos.

Durante
A comunidade registra sintomas, orienta grupos vulnerabilizados, dialoga com escolas, UBS e defesa civil, e evita atividades externas nos horários mais críticos.

Depois
Os dados do sistema, os relatos comunitários e os registros de saúde são comparados para produzir evidência, memória do evento e demanda por resposta pública.

Como o AlertAr pode apoiar territórios amazônicos

Durante fumaça, queimada ou seca, o AlertAr pode ajudar a:

Antecipar
identificar dias críticos antes da exposição mais intensa.

Comunicar
traduzir previsão técnica em orientação local.

Priorizar
crianças, idosos, gestantes, pessoas com asma e trabalhadores expostos.

Registrar
comparar alertas, relatos comunitários e dados de saúde.

Evidências sobre impactos na saúde

O monitoramento integrado permite produzir evidências sobre:

  • períodos e territórios com maior exposição à fumaça;
  • relação entre eventos extremos e procura por serviços de saúde;
  • interrupção de acesso a cuidado, escola, trabalho e transporte.
  • desigualdades de exposição e resposta;
  • grupos mais vulnerabilizados;
  • efeitos acumulados de seca, fumaça, calor e cheias.

Essas evidências podem apoiar planos locais, pedidos de resposta emergencial, comunicação pública e defesa de direitos territoriais.

Como começar um monitoramento territorial de clima e saúde

  1. Escolher um problema sentido no território: fumaça, calor, seca ou cheia.
  2. Definir sinais locais: sintomas, água, deslocamento, escola, trabalho, alimento.
  3. Escolher indicadores complementares: ar, chuva, temperatura, saúde.
  4. Acompanhar antes, durante e depois do evento.
  5. Comunicar de forma simples: alerta, boletim, mapa, reunião ou áudio.
  6. Usar a evidência para cuidado, prevenção, incidência e proteção de direitos.

O que pode ser feito junto com a Rede MTI?

A partir dos dados

  • oficinas de leitura de mapas;
  • protocolos simples de monitoramento;
  • boletins territoriais;
  • painéis por município ou região;
  • comparação entre previsão, exposição e saúde.

A partir dos territórios

  • validação comunitária dos indicadores;
  • inclusão de relatos e sinais locais;
  • definição de prioridades;
  • comunicação acessível para ação rápida;
  • construção de evidências para incidência.

O próximo passo é aproximar os dados produzidos pelo Observatório dos registros comunitários da Rede MTI.

Conclusão

Dados não substituem o conhecimento do território.
Eles podem fortalecer esse conhecimento.

Para enfrentar os impactos das mudanças climáticas na Amazônia, precisamos de monitoramento que seja:

territorial · participativo · aberto · compreensível · orientado à ação

A pergunta final não é apenas “que dados temos?”, mas “que dados ajudam a proteger vidas, territórios e direitos agora?”.