Apêndice B — CID – Classificação Internacional de Doenças
A Classificação Internacional de Doenças (CID) é uma classificação padronizada usada para registrar, agrupar e comparar doenças, agravos, lesões, causas externas, sinais, sintomas e causas de morte. Nos Sistemas de Informação em Saúde (SIS), códigos CID aparecem em bases como SIM (Capítulo 5), SIH (Capítulo 7), SIA (Capítulo 8) e SINAN (Capítulo 9), embora o significado operacional do campo varie conforme o sistema.
A CID não é apenas uma lista de diagnósticos. Ela organiza informações clínicas e epidemiológicas em códigos comparáveis, permitindo produzir estatísticas de mortalidade, morbidade, internações, causas externas e outros eventos de saúde. Por isso, antes de analisar um campo CID, é preciso saber se ele representa causa básica de óbito, diagnóstico principal, diagnóstico secundário, causa externa, agravo de notificação ou outro uso específico.
B.1 Resumo
| Característica | Descrição |
|---|---|
| Nome | Classificação Internacional de Doenças |
| Instituição responsável | Organização Mundial da Saúde (OMS) |
| Uso central | Padronizar registro, tabulação e comparação de mortalidade e morbidade |
| Revisão vigente internacionalmente | CID-11, adotada em 2019 e em vigor desde 1º de janeiro de 2022 |
| Revisão usada nas principais séries brasileiras recentes | CID-10, adotada nos sistemas nacionais a partir de 1996 |
| Unidade informacional | Código, categoria, subcategoria, capítulo, bloco ou lista de tabulação |
| Cuidado central | Revisões, regras de codificação e agrupamentos mudam a comparabilidade temporal |
B.2 Quando usar a CID
Use a CID quando a pergunta envolve causas, diagnósticos, agravos, causas externas ou agrupamentos clínico-epidemiológicos. O mesmo código pode aparecer em sistemas diferentes, mas o campo em que ele aparece muda a interpretação.
| Pergunta de análise | Sistema comum | Campo ou uso da CID | Cuidado principal |
|---|---|---|---|
| Quais causas de morte predominam? | SIM | Causa básica e causas associadas | Causa básica não é necessariamente a última condição da sequência causal |
| Quais diagnósticos motivam internações? | SIH | Diagnóstico principal e secundário | Diagnóstico principal é parte do registro hospitalar e pode ser afetado por regras administrativas |
| Quais causas externas aparecem em atendimentos ou óbitos? | SIM, SIH, SIA | Códigos dos capítulos XIX e XX da CID-10 | Separar natureza da lesão e circunstância externa |
| Um agravo é de notificação compulsória? | SINAN | Código ou faixa CID usada como referência | A definição de caso do agravo é mais importante que o código isolado |
| Um indicador usa lista específica? | SIM, SIH, SIA | Lista de evitabilidade, ICSAP, capítulos ou grupos | Versionar a lista e a revisão da CID |
Um código CID isolado raramente define a análise inteira. Declare sempre o sistema, o campo, a revisão da CID, o período e o agrupamento usado.
B.3 Histórico
As primeiras classificações estatísticas de causas de morte estão ligadas aos trabalhos de John Graunt (1620-1674) e às tabelas de mortalidade de Londres. O objetivo inicial era organizar causas de óbito de forma suficientemente padronizada para comparar padrões de mortalidade no tempo.
No século XIX, William Farr (1807-1883) contribuiu para a padronização da nomenclatura e da classificação das causas de morte. Em 1891, o Instituto Internacional de Estatística criou um comitê presidido por Jacques Bertillon (1851-1922) para preparar uma classificação internacional de causas de óbito. A chamada Classificação de Bertillon foi inspirada na classificação usada em Paris e passou a ser adotada em diferentes países.
Ao longo do século XX, sucessivas revisões ampliaram o escopo e reorganizaram a estrutura da classificação. Com a criação da Organização Mundial da Saúde, em 1948, a OMS passou a coordenar a manutenção e a atualização da classificação internacional. A CID tornou-se a base internacional para estatísticas comparáveis de mortalidade e morbidade entre países e ao longo do tempo (WHO, 2026).
Uma descrição histórica mais detalhada pode ser consultada no documento History of the development of the ICD.
B.4 Estrutura da CID-10
A CID-10 é organizada de forma hierárquica. Em análises de SIS, é comum alternar entre níveis amplos, como capítulos, e níveis detalhados, como subcategorias de quatro caracteres.
| Nível | Exemplo na CID-10 | Uso comum |
|---|---|---|
| Capítulo | Capítulo I: Algumas doenças infecciosas e parasitárias (A00-B99) |
Grandes grupos de causas |
| Bloco ou grupo | Doenças infecciosas intestinais (A00-A09) |
Agrupamentos intermediários |
| Categoria | Cólera (A00) |
Causa ou diagnóstico em três caracteres |
| Subcategoria | Cólera devida a Vibrio cholerae 01, biótipo El Tor (A00.1) |
Maior detalhamento clínico |
Em muitos arquivos do DATASUS, o ponto da subcategoria é removido. Assim, A00.1 pode aparecer como A001. Essa diferença é de formato, não de conteúdo, mas precisa ser tratada antes de juntar bases, buscar listas de códigos ou filtrar causas.
B.4.1 Exemplo prático
Para “Cólera devida a Vibrio cholerae 01, biótipo El Tor” na CID-10:
- Capítulo: Capítulo I – Algumas doenças infecciosas e parasitárias (
A00-B99) - Bloco: Doenças infecciosas intestinais (
A00-A09) - Categoria: Cólera (
A00) - Subcategoria: Cólera El Tor (
A00.1, frequentementeA001em bases sem ponto)
Você pode acessar e explorar o catálogo da CID-10 na tabela abaixo:
Nos links a seguir, você pode consultar a hierarquia da CID-10 e da CID-11:
B.5 CID nos sistemas brasileiros
O Brasil utilizou a CID-9 em séries nacionais até 1995. A partir de 1996, as principais bases nacionais passaram a divulgar causas e diagnósticos segundo a CID-10. Essa mudança é decisiva para séries históricas longas: comparações antes e depois de 1996 precisam considerar a troca de revisão, as listas de equivalência e possíveis quebras de comparabilidade.
| Sistema | Uso típico da CID | Cuidado |
|---|---|---|
| SIM | Causa básica e causas mencionadas na Declaração de Óbito | Regras de seleção da causa básica mudam a interpretação |
| SIH | Diagnóstico principal, diagnósticos secundários e causas externas | Campo diagnóstico está ligado à internação autorizada |
| SIA | Diagnóstico ou CID compatível em alguns procedimentos e instrumentos | Nem todo atendimento ambulatorial tem diagnóstico com o mesmo papel |
| SINAN | Referência para agravos e classificações específicas | Definição de caso e ficha do agravo prevalecem sobre o código isolado |
B.5.1 Mortalidade e morbidade
Em mortalidade, a CID é usada para padronizar causas de morte, especialmente a causa básica do óbito. Em morbidade, pode representar diagnóstico principal de internação, diagnóstico secundário, motivo de atendimento, agravo de notificação ou condição compatível com procedimento. Essas diferenças impedem que códigos CID sejam somados de forma mecânica entre sistemas.
B.5.2 Causas externas
Na CID-10, causas externas e lesões aparecem em capítulos distintos. O capítulo XIX descreve a natureza da lesão, envenenamento ou consequência; o capítulo XX descreve a circunstância externa, como acidente de transporte, queda, agressão ou evento de intenção indeterminada. Para estudos de violência, acidentes e trânsito, essa distinção é central.
Não use apenas códigos de lesão para estudar causas externas sem verificar se a base também possui o código da circunstância externa. “Fratura” e “acidente de transporte” respondem a perguntas diferentes.
B.6 CID-11 e transição no Brasil
A CID-11 foi adotada pela 72ª Assembleia Mundial da Saúde em maio de 2019 e entrou em vigor internacionalmente em 1º de janeiro de 2022 (WHO, 2026). Ela foi desenhada para uso digital, com ferramentas online, API, tradução controlada e maior flexibilidade de codificação (WHO, 2022).
No Brasil, a implementação da CID-11 é um processo gradual. Nota técnica do Ministério da Saúde de dezembro de 2024 informa que a versão em português está disponível no navegador da OMS desde fevereiro de 2024, que o país passou a atualizar a CID-10 da versão 2008 para a versão 2019, e que o início do uso da CID-11 nos sistemas de vigilância em saúde estava previsto para janeiro de 2027 (BRASIL, 2024).
B.7 Cuidados de interpretação
| Risco analítico | Consequência | Boa prática |
|---|---|---|
| Misturar revisões da CID | Quebra de série histórica | Separar períodos e usar tabelas de transição quando disponíveis |
| Confundir capítulo, bloco, categoria e subcategoria | Agrupamentos incorretos | Definir o nível hierárquico antes da tabulação |
| Ignorar o campo do sistema | Interpretação clínica ou epidemiológica errada | Ler o dicionário da base e a ficha de origem |
| Usar código muito detalhado em população pequena | Instabilidade e risco de identificação indireta | Agregar por capítulo, bloco ou lista validada |
| Remover ou inserir ponto em códigos sem controle | Perda de correspondência entre listas e bases | Padronizar formato dos códigos antes da análise |
| Comparar CID-10 e CID-11 como se fossem equivalentes | Tendências artificiais | Documentar mapeamentos, dupla codificação e quebras |
Em síntese, a CID é uma infraestrutura de comparabilidade. Seu valor analítico depende menos do código isolado e mais da combinação entre revisão, campo, sistema de origem, regra de codificação e nível de agregação.