Apêndice C — Códigos dos municípios

Os códigos de município são identificadores territoriais fundamentais nos Sistemas de Informação em Saúde (SIS). Eles aparecem em campos como município de residência, município de ocorrência, município de atendimento, município de notificação e município do estabelecimento. Esses campos permitem agregar eventos, calcular indicadores e relacionar bases diferentes, mas cada um responde a uma pergunta territorial distinta.

No Brasil, a referência oficial é a relação de códigos de municípios do IBGE. O código completo possui 7 dígitos: os dois primeiros identificam a Unidade da Federação (UF), os quatro dígitos seguintes identificam o município dentro da UF, e o último dígito é o dígito verificador. O IBGE informa que essa relação é atualizada sistematicamente para incorporar criação de municípios, mudanças de nome, fusões e outras alterações territoriais (IBGE, 2026a).

Nota

Muitos SIS usam o código municipal com 6 dígitos, sem o dígito verificador. Por isso, antes de juntar bases, verifique se os códigos estão em formato de 6 ou 7 dígitos e padronize explicitamente.

C.1 Resumo

Quadro C.1: Características gerais dos códigos municipais
Característica Descrição
Instituição responsável IBGE
Código oficial completo 7 dígitos: código da UF (2), código do município dentro da UF (4) e dígito verificador (1)
Leitura regional O primeiro dígito do código da UF também identifica a Grande Região
Formato frequente nos SIS 6 dígitos, obtidos pela retirada do dígito verificador
Uso central nos SIS Identificar território de residência, ocorrência, atendimento, notificação ou estabelecimento

C.2 Quando usar

Use códigos municipais quando a pergunta envolve território, agregação espacial, indicadores por município ou relacionamento entre bases. O ponto central é distinguir o tipo de território representado pelo campo (ver Quadro C.2).

Quadro C.2: Perguntas comuns envolvendo códigos municipais
Pergunta de análise Campo territorial adequado Cuidado principal
Qual é o risco para a população residente? Município de residência Usar denominador populacional do mesmo território
Onde o evento ocorreu? Município de ocorrência Não interpretar como residência da pessoa
Onde o atendimento foi realizado? Município de atendimento ou estabelecimento Mede produção ou oferta local, não cobertura da população residente
Onde o caso foi notificado? Município de notificação Pode diferir do local provável de infecção
Como juntar SIS com população ou malha? Código municipal padronizado Conferir 6/7 dígitos, ano da divisão territorial e códigos ausentes

C.3 Estrutura do código

O código municipal do IBGE possui sete dígitos e identifica cada município de forma única no país. Sua composição pode ser lida em três blocos: os dois primeiros dígitos formam o código da UF; os quatro seguintes identificam o município dentro dessa UF; e o último é o dígito verificador. Assim, o código de Belo Horizonte, 3106200, pode ser separado como 31 + 0620 + 0 (IBGE, 2011, 2026a).

C.3.1 Leitura dos sete dígitos

O primeiro dígito tem uma segunda função: ele indica a Grande Região. No exemplo, 3 corresponde ao Sudeste. Esse algarismo, porém, não constitui um bloco adicional; ele já é o primeiro dos dois dígitos que formam o código da UF (31, Minas Gerais). Da mesma forma, 0620 identifica Belo Horizonte dentro de Minas Gerais, não isoladamente no país. O Quadro C.3 mostra essas leituras sobrepostas.

Quadro C.3: Estrutura do código municipal
Posição Trecho de 3106200 Leitura
1 3 Grande Região: Sudeste
1–2 31 Unidade da Federação: Minas Gerais
3–6 0620 Município dentro da UF: Belo Horizonte
7 0 Dígito verificador

Os quatro algarismos da parte municipal têm largura fixa. Em 0620, o zero inicial faz parte desse trecho; se ele for extraído e armazenado como número, torna-se 620. Tratar códigos como texto preserva o formato e evita operações numéricas sem sentido para um identificador.

C.3.2 Primeiro dígito e Grande Região

A convenção permite identificar a Grande Região a partir do primeiro algarismo do código (ver Quadro C.4).

Quadro C.4: Grande Região indicada pelo primeiro dígito
Dígito Grande Região Códigos de UF correspondentes
1 Norte RO 11, AC 12, AM 13, RR 14, PA 15, AP 16, TO 17
2 Nordeste MA 21, PI 22, CE 23, RN 24, PB 25, PE 26, AL 27, SE 28, BA 29
3 Sudeste MG 31, ES 32, RJ 33, SP 35
4 Sul PR 41, SC 42, RS 43
5 Centro-Oeste MS 50, MT 51, GO 52, DF 53

O primeiro dígito é útil para conferência e agrupamento inicial, mas não basta para validar um código municipal. Para junções e análises, use a tabela oficial do IBGE correspondente ao período estudado. A Grande Região do IBGE também não deve ser confundida com regiões e macrorregiões de saúde, que têm outra finalidade e outra composição territorial.

C.3.3 Formatos encontrados nas bases

O código completo de sete dígitos é usado nas tabelas e em diversos produtos do IBGE. Muitos SIS, entretanto, armazenam apenas os seis primeiros dígitos, sem o dígito verificador. O formato reduzido não é um código diferente: é a mesma chave territorial representada sem o último algarismo (ver Quadro C.5).

Quadro C.5: Formatos do código municipal
Formato Composição Exemplo Uso e cuidado
7 dígitos UF (2) + município (4) + dígito verificador (1) 3106200 Formato completo do IBGE
6 dígitos UF (2) + município (4) 310620 Frequente nos SIS; corresponde ao código completo sem o último dígito

Para converter sete dígitos em seis, retire somente o último algarismo. Para passar de seis para sete, associe o valor à tabela oficial do IBGE e recupere o código completo correspondente; não presuma nem calcule o dígito verificador quando a própria tabela pode fornecê-lo.

Em arquivos de saúde, campos como CODMUNRES, MUN_RES, MUNIC_RES, CODMUNOCOR, MUN_NOT ou CODMUN podem aparecer com nomes e tamanhos diferentes. O nome do campo não informa, sozinho, nem o formato nem o significado territorial. Consulte o dicionário da base para confirmar: (1) se o código tem seis ou sete dígitos; e (2) se o município registrado é o de residência, ocorrência, atendimento, notificação ou localização do estabelecimento.

C.4 Quadro de códigos

O quadro interativo de códigos municipais foi gerado com o pacote {geobr} (PEREIRA; GONCALVES, 2024). Para localizar um município, use a caixa “Procurar”.

O projeto IBGE Cidades também permite consultar códigos e informações municipais. Para bases oficiais, consulte a página Códigos dos Municípios e a página da Divisão Territorial Brasileira.

C.5 Divisão Territorial Brasileira

O IBGE é responsável pela Divisão Territorial Brasileira (DTB), que organiza unidades territoriais como municípios, distritos e subdistritos. A DTB é atualizada para refletir alterações legais e administrativas, incluindo criação, extinção, fusão, mudança de nome e alteração de limites territoriais (IBGE, 2026b).

Essa dimensão temporal importa para séries históricas. Um código válido em um ano pode não existir em outro; um município pode ser criado por desmembramento; limites podem mudar; e alguns indicadores podem precisar ser recompostos para manter uma área comparável ao longo do tempo (ver Quadro C.6).

Quadro C.6: Mudanças territoriais e efeitos analíticos
Situação Efeito na análise Boa prática
Criação de município Série histórica começa após a instalação ou criação Declarar o ano da malha ou da DTB
Fusão ou extinção Código antigo deixa de representar unidade vigente Mapear códigos antigos para a unidade atual, quando fizer sentido
Mudança de nome Código pode permanecer, mas rótulo muda Usar código como chave e nome como atributo
Alteração de limites População e eventos podem mudar de área Evitar comparar sem considerar a malha do período
Município ignorado ou estrangeiro Pode aparecer como código especial ou ausente Tratar separadamente de municípios válidos

C.6 Regionalização em saúde

A regionalização organiza o Sistema Único de Saúde (SUS) em espaços que ultrapassam os limites de um único município. Essa organização é necessária porque a infraestrutura, os profissionais e os serviços de maior complexidade não se distribuem de maneira uniforme pelo território. Um município pode assegurar grande parte da atenção primária, mas depender de outro para exames especializados, internações, terapia intensiva ou tratamento oncológico. Assim, analisar os dados dos Sistemas de Informação em Saúde (SIS) apenas por município ou por Unidade da Federação pode ocultar relações assistenciais relevantes e desigualdades de acesso entre territórios (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026).

O Decreto nº 7.508, de 28 de junho de 2011, define Região de Saúde como um espaço geográfico contínuo formado por agrupamentos de municípios limítrofes, delimitado a partir de identidades culturais, econômicas e sociais e de redes de comunicação e infraestrutura de transportes compartilhadas. As regiões são instituídas pelos estados, em articulação com os municípios, e devem conter, no mínimo, ações e serviços de atenção primária, urgência e emergência, atenção psicossocial, atenção ambulatorial especializada e hospitalar e vigilância em saúde. A definição mostra que a região não é apenas uma divisão cartográfica: ela deve expressar uma rede capaz de articular necessidades da população, oferta de serviços e fluxos de atendimento (BRASIL, 2011).

A Região de Saúde não substitui o município nem a Unidade da Federação como ente político-administrativo. Trata-se de uma territorialização própria da organização do SUS, que pode ser revista quando mudam as redes, os fluxos ou os pactos interfederativos. Em escala mais ampla, as Macrorregiões de Saúde reúnem uma ou mais regiões e orientam o planejamento de serviços de maior complexidade. A Resolução CIT nº 37, de 22 de março de 2018, consolidou a Macrorregião de Saúde como base do Planejamento Regional Integrado (PRI). Em consulta realizada em 2026, o Ministério da Saúde informava 456 Regiões de Saúde e 117 Macrorregiões de Saúde no país; a relação oficial pode ser consultada na página de regionalização do Ministério da Saúde (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026; BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. COMISSÃO INTERGESTORES TRIPARTITE, 2018). Essas escalas territoriais se complementam e devem ser analisadas em conjunto (ver Quadro C.7).

Quadro C.7: Escalas territoriais usadas na regionalização do SUS
Escala Papel na análise e no planejamento
Município Identifica o ente responsável pela gestão local e permite observar necessidades e resultados próximos à população.
Região de Saúde Agrupa municípios articulados por redes e fluxos assistenciais e apoia a pactuação da oferta regional.
Macrorregião de Saúde Integra uma ou mais regiões para planejar ações e serviços de maior complexidade e organizar referências em escala ampliada.
Unidade da Federação Coordena a regionalização, institui as regiões em articulação com os municípios e acompanha desigualdades no território estadual.

C.6.1 Governança e planejamento regional

A regionalização exige coordenação entre diferentes gestores. No âmbito regional, a Comissão Intergestores Regional (CIR) reúne representantes do estado e dos municípios para pactuar responsabilidades, referências assistenciais e prioridades. As decisões que envolvem o conjunto do estado são articuladas na Comissão Intergestores Bipartite (CIB), enquanto a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) atua no plano nacional. Esse arranjo procura compatibilizar autonomia municipal e responsabilidade compartilhada, especialmente quando uma linha de cuidado depende de serviços localizados em mais de um município.

O Planejamento Regional Integrado parte da análise das necessidades de saúde da população e da capacidade instalada para definir prioridades, responsabilidades e investimentos na rede. Na prática, pode apoiar decisões sobre onde ampliar leitos, instalar serviços especializados, organizar transporte sanitário e estabelecer referências para urgências ou tratamentos de alta complexidade. O processo deve considerar tanto a residência das pessoas quanto os lugares onde o atendimento efetivamente ocorre, pois a fronteira administrativa nem sempre coincide com o território percorrido pelos usuários (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2024).

Para trabalhar com essas escalas, o código do município funciona como chave de ligação entre os registros dos SIS e as tabelas que informam a Região e a Macrorregião de Saúde de cada município. Essa classificação não pode ser deduzida dos algarismos do código do IBGE. É necessário obter uma tabela de correspondência produzida para determinado período e registrar sua versão, porque o desenho regional pode ser alterado sem que o código municipal mude. Em séries históricas, deve-se decidir se cada observação será classificada segundo a regionalização vigente no ano do evento ou segundo uma configuração territorial fixa, escolhida para tornar os períodos comparáveis.

C.6.2 Aplicações aos dados dos SIS

A agregação por Região de Saúde costuma produzir indicadores mais estáveis do que a análise isolada de municípios pequenos, mas não elimina a necessidade de examinar a heterogeneidade interna. Uma média regional favorável pode combinar um município-polo com ampla oferta e municípios periféricos com barreiras de deslocamento. Por isso, resultados regionais devem ser acompanhados, sempre que possível, por medidas municipais, distribuição da oferta e informações sobre tempo ou distância de viagem. A pergunta de pesquisa deve orientar a escolha da unidade territorial e das informações utilizadas (ver Quadro C.8).

Quadro C.8: Exemplos de uso das Regiões de Saúde na análise dos SIS
Pergunta Unidade e informação recomendadas
Qual é o risco de adoecimento ou morte da população regional? Agregar eventos pelo município de residência e usar denominadores populacionais compatíveis com a mesma composição regional.
A região consegue atender seus próprios residentes? Comparar residência e local de atendimento, estimando a proporção de atendimentos realizados dentro e fora da região.
Onde se concentra a oferta assistencial? Agregar estabelecimentos, procedimentos ou internações pelo município de atendimento e relacioná-los à rede regional.
Existem vazios assistenciais ou barreiras de acesso? Combinar oferta, utilização, fluxos intermunicipais, distâncias e características da população.
A mudança do desenho regional alterou o indicador? Recalcular a série com uma regionalização fixa e compará-la à classificação vigente em cada período.

Também é importante distinguir o município de residência do município de ocorrência ou atendimento. No SIM, por exemplo, o local de residência descreve melhor o risco de mortalidade da população, enquanto o local de ocorrência ajuda a estudar a concentração dos serviços. No SIH/SUS e no SIA/SUS, o cruzamento entre origem e destino permite construir matrizes de fluxo, estimar dependência de outros municípios e identificar polos assistenciais. Regiões definidas administrativamente e regiões formadas pelos fluxos reais podem não coincidir, e essa diferença é uma evidência útil para avaliar a organização da rede (XAVIER et al., 2019).

O uso da regionalização acrescenta uma camada substantiva à análise dos códigos municipais. Depois de padronizar o código, verificar mudanças territoriais e selecionar a tabela de correspondência adequada, é possível reunir registros de diferentes sistemas segundo territórios de planejamento comuns. Essa operação favorece a comparação entre necessidades, oferta e utilização dos serviços, mas seus resultados devem ser interpretados à luz dos pactos de referência, dos fluxos observados e das limitações de cobertura de cada SIS.

C.7 Boas práticas para junções

Códigos municipais devem ser tratados como texto, não como número. Isso preserva zeros à esquerda, evita perda de dígitos e facilita a padronização entre formatos.

library(dplyr)
library(stringr)

base_saude <- base_saude |>
  mutate(
    codmun_6 = str_pad(as.character(codmun_6), width = 6, pad = "0"),
    codmun_7 = str_pad(as.character(codmun_7), width = 7, pad = "0")
  )

Antes de juntar bases, defina qual chave será usada. Se a base de saúde usa 6 dígitos e a tabela territorial usa 7, remova o dígito verificador da tabela territorial ou acrescente-o de forma confiável a partir de uma tabela oficial. Não tente inferir o dígito verificador manualmente sem necessidade (ver Quadro C.9).

Quadro C.9: Erros comuns em junções por município
Problema comum Consequência Como evitar
Tratar código como número Perda de zeros à esquerda e problemas de formato Converter para texto antes da junção
Misturar 6 e 7 dígitos Falha de pareamento Criar chaves explícitas codmun_6 e codmun_7
Usar nome do município como chave Erros por acento, grafia e mudança de nome Usar código como chave
Ignorar ano da malha Comparações territoriais inconsistentes Registrar ano da DTB, malha ou tabela usada
Misturar residência e ocorrência Indicador territorial incorreto Separar campos conforme a pergunta

Em síntese, o código municipal é uma chave de integração entre SIS, população, malhas, estabelecimentos e indicadores. Seu uso correto depende de padronizar o formato, declarar o ano da referência territorial e distinguir claramente residência, ocorrência, atendimento, notificação e localização do estabelecimento.

C.8 Veja também