7  SIH — Sistema de Informações Hospitalares do SUS

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7.1 Resumo

Quadro 7.1: Características gerais do SIH/SUS
Característica Descrição
Ano de criação 1981
Evento registrado Internação financiada pelo SUS
Documento básico Autorização de Internação Hospitalar (AIH)
Unidade de análise AIH, não pessoa
Cobertura Internações na rede pública e conveniada ao SUS
Abrangência assistencial Não cobre integralmente internações privadas não financiadas pelo SUS
Disseminação Mensal, com defasagem curta em relação à competência

O Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) é a principal fonte nacional para analisar internações financiadas pelo SUS. Seus dados permitem estudar volume de internações, diagnósticos, procedimentos, permanência hospitalar, valores pagos, óbitos hospitalares, fluxos de pacientes e uso da rede hospitalar.

O SIH tem origem administrativa e financeira. Isso significa que sua unidade básica é a AIH, criada para autorizar, registrar e remunerar internações. Mesmo assim, seus dados são amplamente usados em estudos epidemiológicos, avaliação de políticas, planejamento regional e análise da oferta hospitalar.

7.2 Quando usar o SIH

O SIH deve ser usado quando a pergunta envolve internações hospitalares financiadas pelo SUS, procedimentos hospitalares, permanência, valores ou desfecho da internação. Quando a pergunta envolve eventos não hospitalares, atendimentos ambulatoriais ou internações exclusivamente privadas, outras fontes são necessárias.

Quadro 7.2: Perguntas comuns que podem ser respondidas com o SIH
Pergunta de análise Usar SIH para Fonte complementar comum
Quantas internações SUS ocorreram? Contar AIH aprovadas POP (Apêndice D) para taxas
Quais causas geraram internação? Analisar diagnóstico principal CID (Apêndice B) para agrupamentos
Quais procedimentos foram realizados? Analisar procedimento realizado SIGTAP para regras e descrição
Onde ocorreram as internações? Analisar estabelecimento e município de internação CNES (Capítulo 10) para perfil do serviço
Houve óbito hospitalar? Identificar desfecho da internação SIM (Capítulo 5) para mortalidade total
Qual foi o valor registrado? Analisar valores da AIH Tabelas de remuneração do SUS
Qual foi o fluxo entre residência e internação? Comparar município de residência e ocorrência Regiões de saúde e rede assistencial

O Quadro 7.2 funciona como um primeiro filtro de adequação da fonte. Quando a pergunta se refere a produção hospitalar financiada pelo SUS, o SIH tende a ser a fonte central; quando envolve risco populacional, estrutura da rede, mortalidade total ou regras de procedimento, a análise costuma precisar de outra base para complementar o numerador, o denominador ou a interpretação.

7.3 SIH e SIA

SIH e SIA (Capítulo 8) são sistemas de produção assistencial e têm forte componente administrativo-financeiro. A diferença principal está na unidade registrada: o SIH organiza internações por AIH, enquanto o SIA registra produção ambulatorial por diferentes instrumentos (ver Quadro 7.3).

Quadro 7.3: Diferenças práticas entre SIH e SIA
Dimensão SIH SIA
Tipo de cuidado Hospitalar Ambulatorial
Unidade típica AIH Procedimento ou autorização ambulatorial
Evento assistencial Internação Atendimento, exame, procedimento ou terapia
Periodicidade Mensal Mensal
Uso comum Morbidade hospitalar e produção Produção ambulatorial e procedimentos
Cuidado central AIH não é pessoa Produção não é pessoa

Na prática, a distinção entre SIH e SIA evita duas confusões comuns. A primeira é tentar localizar no SIH procedimentos que são essencialmente ambulatoriais. A segunda é somar produção ambulatorial e hospitalar como se ambas tivessem a mesma unidade de registro. Os dois sistemas podem ser analisados em conjunto, mas a combinação precisa preservar a diferença entre AIH, procedimento, autorização e quantidade aprovada.

7.4 Histórico e organização

A concepção do SIH tem origem administrativa, voltada ao pagamento de internações, controle, auditoria e organização da produção hospitalar. Em 1977, já havia um sistema nacional para controle de contas hospitalares, mas com problemas de preenchimento, previsibilidade de faturamento e risco de fraude. A solução proposta foi simplificar e padronizar o processo por meio de um instrumento único: a Autorização de Internação Hospitalar (AIH) (PEPE, 2009).

A adoção da AIH e a implantação do SIH começaram em 1981, com projeto piloto em Curitiba, e avançaram para implantação nacional em 1983. Ao longo do tempo, o sistema incorporou mudanças tecnológicas, regras de crítica e mecanismos de validação. Atualmente, há críticas automáticas para identificar incompatibilidades entre idade, sexo, procedimento, diagnóstico, capacidade declarada e características do estabelecimento, contribuindo para a consistência do registro (PEPE, 2009).

A cobertura do SIH se limita às internações financiadas pelo SUS na rede pública e conveniada. A AIH reúne informações demográficas, município de residência, estabelecimento, diagnósticos, procedimentos, datas, permanência, desfecho, valores e regras administrativas.

Este é um dos sistemas de informação em saúde com atualização mais frequente, assim como o Sistema de Informações Ambulatoriais — SIA (Capítulo 8). A análise em escala nacional exige atenção a volume de dados, processamento incremental, uso de bancos relacionais ou formatos colunares e documentação clara dos filtros aplicados.

Essa origem não diminui o valor analítico do SIH, mas orienta a leitura dos dados. O sistema registra a internação a partir de um fluxo de autorização, faturamento e crítica, e não a partir de um prontuário clínico completo. Por isso, o melhor uso do SIH combina conhecimento sobre a assistência hospitalar com conhecimento das regras de registro.

Em 2016, a Comissão Intergestores Tripartite instituiu o Conjunto Mínimo de Dados da Atenção à Saúde (CMD), com implantação incremental e gradual e previsão de integração dos registros do SIH, do SIA e de sistemas relacionados. Trata-se de uma agenda de convergência informacional, não de evidência de descontinuação imediata do SIH (BRASIL, 2016). Em 2025, a Portaria GM/MS nº 7.639 incluiu o SIH e o CMD entre os bancos nacionais cuja alimentação deve ocorrer de forma mensal e sistemática (BRASIL, 2025).

7.5 Fluxo da AIH

A AIH estrutura o ciclo administrativo da internação: solicitação, autorização, registro da internação, faturamento, crítica, aprovação ou rejeição e posterior disseminação dos dados.

flowchart TD
  sol[Solicitação de internação] --> aut[Autorização da AIH]
  aut --> int[Internação hospitalar]
  int --> alta[Alta, transferência ou óbito]
  alta --> fat[Faturamento da AIH]
  fat --> crit[Críticas e consistência]
  crit --> apr[AIH aprovada]
  crit --> rej[AIH rejeitada]
  apr --> rd[Arquivo RD]
  rej --> rjer[Arquivos RJ/ER]
  rd --> sis[Disseminação do SIH]
Figura 7.1: Fluxo simplificado da Autorização de Internação Hospitalar

Esse fluxo reforça que a base disseminada é produto de regras administrativas. AIHs rejeitadas, valores aprovados, procedimentos realizados e motivo de saída devem ser interpretados a partir dessas regras.

7.6 AIH, internação e pessoa

A AIH não deve ser interpretada automaticamente como pessoa única. Uma pessoa pode ter mais de uma AIH ao longo do tempo, e uma internação complexa pode envolver regras específicas de continuidade, renovação ou cobrança. Para muitas análises, “número de AIH” é uma aproximação operacional de internações aprovadas, não uma contagem de indivíduos.

Quadro 7.4: Diferenças entre AIH, internação, pessoa e procedimento
Unidade O que representa Cuidado
AIH Autorização e registro administrativo da internação Não identifica pessoa única em séries longas
Internação Episódio de cuidado hospitalar Pode exigir regras para continuidade
Pessoa Indivíduo internado Nem sempre é identificável em bases públicas
Procedimento Ação hospitalar registrada Pode ser solicitado, realizado ou secundário
Estabelecimento Serviço onde ocorreu a internação Deve ser analisado com CNES

As categorias do Quadro 7.4 ajudam a escolher palavras mais precisas no texto analítico. Em estudos agregados, normalmente se contam AIHs ou internações registradas; em estudos longitudinais, pode ser necessário reconstruir episódios; e em estudos centrados em indivíduos, bases públicas agregadas ou desidentificadas podem não ser suficientes para identificar pessoas com segurança.

Aviso

Evite escrever “pacientes” quando a análise contou AIHs. Use “AIHs”, “internações registradas” ou “internações aprovadas”, a menos que o método tenha identificado pessoas ou episódios de cuidado.

7.7 Tipos de AIH e complexidade

Nem toda AIH representa um episódio simples e isolado de cuidado. Algumas internações exigem continuidade, longa permanência, procedimentos especiais, complementação de registros ou regras específicas de autorização. Isso afeta contagens, séries temporais e análises por procedimento (ver Quadro 7.5).

Quadro 7.5: Situações que afetam a interpretação da AIH
Situação Impacto na análise
Internação curta e única Contagem por AIH aproxima episódio
Longa permanência Pode exigir regra para continuidade
Procedimento de alta complexidade Pode ter regras específicas de autorização
AIH complementar Pode alterar valores ou informações
Reinternação Pode representar novo episódio ou continuidade clínica
Transferência Pode dividir cuidado entre estabelecimentos

Quando a pergunta é sobre episódios assistenciais, é necessário definir regras para reinternação, transferência e continuidade. Quando a pergunta é sobre produção aprovada, a AIH pode ser analisada diretamente, desde que o método deixe claro o arquivo e os filtros usados.

Uma mesma pessoa pode aparecer em momentos diferentes por agravamento, tratamento prolongado ou retorno ao serviço. Também pode haver mudança de estabelecimento no curso do cuidado. Essas situações são importantes porque uma contagem simples responde bem a perguntas sobre produção aprovada, mas pode ser insuficiente para estimar trajetórias clínicas ou necessidade assistencial.

7.8 Cobertura e unidade de análise

O SIH cobre internações financiadas pelo SUS. Essa delimitação é central para interpretar resultados, especialmente em municípios, especialidades ou procedimentos com grande participação do setor privado não SUS (ver Quadro 7.6).

Quadro 7.6: Dimensões importantes para análise do SIH
Dimensão Cuidado de interpretação
Residência Usada para estimar risco ou demanda da população residente
Ocorrência Indica onde a internação ocorreu
Estabelecimento Permite analisar produção hospitalar e rede
Diagnóstico principal Usado para morbidade hospitalar por causa
Procedimento realizado Usado para produção e pagamento
Valores Representam remuneração registrada, não custo econômico total
Desfecho Refere-se ao encerramento da internação hospitalar

Essas dimensões devem ser tratadas como escolhas metodológicas, não apenas como colunas disponíveis. A residência aproxima a demanda da população, a ocorrência descreve onde a rede foi utilizada, o estabelecimento caracteriza o serviço executor, e os valores expressam remuneração registrada. Quando esses sentidos são misturados, indicadores aparentemente simples podem passar a responder a perguntas diferentes daquelas formuladas no início da análise.

7.9 Diagnóstico, procedimento e valores

O SIH combina campos clínicos e administrativos. O diagnóstico principal, codificado pela CID (Apêndice B), descreve a condição associada à internação. O procedimento realizado descreve a produção hospitalar registrada para fins assistenciais e de remuneração. Esses dois campos respondem a perguntas diferentes (ver Quadro 7.7).

Quadro 7.7: Diferenças entre diagnóstico, procedimento e valor
Campo analítico Pergunta respondida Exemplo de uso
Diagnóstico principal Por que a pessoa foi internada? Internações por pneumonia
Diagnóstico secundário Que condição associada foi registrada? Comorbidades ou complicações
Procedimento solicitado O que foi solicitado/autorizado? Solicitação de cirurgia
Procedimento realizado O que foi produzido/remunerado? Cirurgia efetivamente registrada
Valor total Quanto foi pago na AIH? Valor médio por internação

Valores do SIH devem ser interpretados como valores pagos ou aprovados segundo regras do SUS. Eles não equivalem necessariamente ao custo real de produção do cuidado, ao preço de mercado ou ao gasto total do hospital.

Diagnóstico e procedimento também não são substitutos perfeitos um do outro. Uma análise por diagnóstico tende a se aproximar da morbidade hospitalar registrada, enquanto uma análise por procedimento se aproxima da produção hospitalar aprovada. Em algumas situações, como cirurgias eletivas, internações obstétricas ou procedimentos de alta complexidade, as duas leituras podem produzir retratos diferentes do mesmo conjunto de AIHs.

7.10 Procedimentos e SIGTAP

Os procedimentos hospitalares registrados no SIH são condicionados por regras da tabela de procedimentos do SUS, conhecida como SIGTAP. Essas regras incluem descrição do procedimento, grupo, subgrupo, forma de organização, complexidade, financiamento, compatibilidades e restrições (ver Quadro 7.8).

Quadro 7.8: Elementos do SIGTAP relevantes para análise do SIH
Regra do procedimento Por que importa
Código e descrição Define o procedimento analisado
Grupo e subgrupo Permite agregação da produção
Compatibilidade CID Afeta aprovação e consistência
Compatibilidade por idade e sexo Evita combinações inválidas
Complexidade Ajuda a estratificar produção
Valor de referência Influencia remuneração registrada
Vigência temporal Evita comparar códigos descontinuados

Em séries históricas, procedimentos podem mudar de código, descrição, valor ou regra de compatibilidade. Por isso, análises por procedimento devem guardar a versão da tabela usada e verificar se a mudança observada reflete produção assistencial ou mudança administrativa.

A consulta ao SIGTAP é especialmente importante quando a pergunta depende de listas de procedimentos. Uma série de internações cirúrgicas, por exemplo, pode ser afetada por inclusão, exclusão ou alteração de códigos. Sem documentar a lista e a competência da tabela, fica difícil saber se uma variação temporal representa mudança real na assistência ou apenas reorganização do registro.

7.11 Análise territorial e temporal

O SIH permite analisar internações por residência do paciente, local de ocorrência, estabelecimento e competência. Esses recortes respondem a perguntas distintas (ver Quadro 7.9).

Quadro 7.9: Recortes territoriais e temporais frequentes no SIH
Recorte Pergunta respondida Exemplo
Residência De onde vem a demanda por internação? Taxa de internação de residentes
Ocorrência Onde a internação aconteceu? Produção hospitalar por município
Estabelecimento Qual serviço realizou a internação? Perfil de maternidades ou hospitais
Competência Em que mês a produção foi registrada? Série mensal de AIHs aprovadas
Data de internação ou saída Quando ocorreu o episódio assistencial? Permanência e sazonalidade

Para estimar risco populacional, em geral usa-se residência e população residente. Para estudar rede, oferta, produção ou centralidade hospitalar, ocorrência e estabelecimento são mais adequados. Em séries temporais, diferencie data de internação, data de saída e mês de competência da AIH.

7.12 Exemplo: fluxos de internação

Fluxos de internação são uma aplicação importante do SIH para regionalização e planejamento da rede. A ideia é comparar o município de residência do usuário com o município ou estabelecimento onde ocorreu a internação.

Quadro 7.10: Campos úteis em uma análise de fluxos de internação
Elemento da análise Campo ou dimensão Cuidado
Origem Município de residência Representa demanda da população residente
Destino Município ou CNES de internação Representa oferta utilizada
Volume Número de AIHs Não é número de pessoas
Escopo Procedimento, causa ou especialidade Definir antes da análise
Tempo Competência ou data de internação Manter recorte único
Rede Região de saúde ou macrorregião Usar regionalização vigente

Os campos do Quadro 7.10 delimitam uma matriz origem-destino. A origem deve ser lida como demanda de residentes, enquanto o destino indica a rede utilizada. O volume do fluxo, por sua vez, continua sendo volume de AIHs, e não de pessoas únicas; essa diferença é relevante em tratamentos que podem gerar múltiplas internações no período observado.

library(dplyr)

fluxos_sih <- sih_p |>
  count(MUNIC_RES, MUNIC_MOV, name = "aih") |>
  mutate(
    mesmo_municipio = MUNIC_RES == MUNIC_MOV
  )

fluxos_sih
Nota

Os nomes das variáveis de ocorrência podem variar conforme processamento e arquivo. Em algumas bases, o município de internação aparece como MUNIC_MOV, MUNIC_HOSP ou campo equivalente. Confirme a estrutura do ano analisado antes de automatizar o fluxo.

7.13 Estrutura dos dados

O documento de estrutura do SIH descreve as variáveis disponíveis nos arquivos de disseminação. Entre os campos de maior uso estão competência, município de residência, estabelecimento, idade, sexo, diagnóstico principal, procedimento realizado, datas de internação e saída, dias de permanência, valores e motivo de saída.

Antes de construir indicadores, vale fazer uma inspeção simples da base: conferir tipos de variáveis, valores ausentes, códigos territoriais, datas impossíveis, diagnósticos vazios, procedimentos não esperados e totais por competência. Essa etapa costuma encontrar problemas pequenos, mas capazes de alterar séries, mapas e taxas quando passam despercebidos.

7.13.1 Campos mínimos para inspecionar

Os nomes e a disponibilidade das variáveis podem variar conforme o arquivo, o período e o processamento. O Quadro 7.11 reúne os campos mais úteis para iniciar essa verificação.

Quadro 7.11: Campos úteis para uma primeira inspeção dos dados do SIH
Campo Uso
ANO_CMPT e MES_CMPT Competência da AIH
N_AIH Identificador administrativo da AIH
CNES ou identificador do hospital Estabelecimento de ocorrência
MUNIC_RES Município de residência
DT_INTER Data de internação
DT_SAIDA Data de saída
DIAG_PRINC Diagnóstico principal
DIAG_SECUN ou equivalente Diagnóstico secundário
PROC_REA Procedimento realizado
IDADE e SEXO Perfil demográfico
MORTE ou motivo de saída Óbito hospitalar ou desfecho
VAL_TOT Valor total registrado

Essa lista não substitui o dicionário oficial, mas oferece um núcleo mínimo para iniciar a análise. A partir dela é possível verificar se a base contém os elementos necessários para responder à pergunta: tempo, território, estabelecimento, diagnóstico, procedimento, perfil demográfico, desfecho e valor. Se algum desses campos estiver ausente ou tiver sido renomeado no processamento, a etapa de preparação deve resolver isso antes da tabulação.

7.13.2 Transformações frequentes

Muitas análises do SIH dependem de transformar campos originais em medidas epidemiológicas ou operacionais. Essas regras devem ser declaradas no método.

Quadro 7.12: Transformações comuns em análises com SIH
Conceito Regra operacional comum Campo associado
Permanência Data de saída menos data de internação DT_INTER, DT_SAIDA
Faixa etária Agrupamento de idade IDADE
Óbito hospitalar Motivo de saída ou indicador de morte MORTE ou equivalente
Grupo de causa Agrupamento do diagnóstico principal DIAG_PRINC
Grupo de procedimento Agrupamento do procedimento realizado PROC_REA
Internação de residente Município de residência no território MUNIC_RES
Internação fora do município Residência diferente da ocorrência MUNIC_RES, ocorrência

Cada transformação do Quadro 7.12 cria uma variável derivada que passa a carregar decisões analíticas. Faixas etárias podem alterar comparações entre territórios; grupos de causa dependem da lista CID escolhida; permanência depende da qualidade das datas; e internação fora do município depende da padronização dos códigos municipais. Por isso, essas regras devem aparecer no código e no texto metodológico.

7.13.3 Prefixo dos arquivos

Quadro 7.13: Prefixos comuns dos arquivos do SIH
Prefixo Conteúdo
RD AIH reduzida, principal arquivo para análise de internações aprovadas
SP Serviços profissionais associados à AIH
RJ AIH rejeitadas
ER AIH rejeitadas com código de erro

Entre os prefixos reunidos no Quadro 7.13, o arquivo RD costuma ser o ponto de partida para análises epidemiológicas e de produção hospitalar. Arquivos SP são úteis quando a pergunta exige detalhar serviços profissionais vinculados à internação. Arquivos de rejeição ajudam em auditoria e qualidade do processamento, mas não representam produção aprovada.

7.14 AIHs rejeitadas

Arquivos RJ e ER registram AIHs rejeitadas ou com erro no processamento. Eles são úteis para auditoria, avaliação da qualidade do faturamento, identificação de inconsistências e estudo de perdas administrativas. No entanto, não devem ser somados aos arquivos RD como se representassem internações aprovadas (ver Quadro 7.14).

Quadro 7.14: Uso analítico dos arquivos de aprovação e rejeição
Arquivo Uso recomendado Cuidado
RD Produção aprovada Base principal para morbidade hospitalar
RJ Rejeições Não representa produção aprovada
ER Códigos de erro Útil para auditoria e qualidade
SP Serviços profissionais Complementa detalhes de produção

Se a pergunta é “quantas internações ocorreram no SUS?”, use AIHs aprovadas. Se a pergunta é “por que AIHs foram rejeitadas?”, use RJ/ER separadamente e descreva os códigos de erro analisados.

7.15 Exemplo: internações por condições sensíveis à atenção primária

Internações por condições sensíveis à atenção primária (ICSAP) são um exemplo clássico de uso do SIH para avaliação indireta do acesso e da efetividade da atenção primária. No Brasil, a lista de condições foi publicada pela Portaria SAS/MS nº 221/2008 (BRASIL, 2008), e há ferramentas em R para aplicar a lista aos registros de AIH (NEDEL, 2019).

Quadro 7.15: Campos úteis em uma análise de ICSAP
Elemento da análise Campo ou dimensão Cuidado
Numerador AIHs com diagnóstico principal na lista ICSAP Documentar a lista e a versão usada
Denominador População residente ou total de AIHs Escolher conforme indicador
Território Município de residência Usar para avaliar risco da população residente
Período Competência ou data de internação Não misturar recortes temporais
Idade Faixa etária Padronizar quando comparar territórios
Cobertura Internações SUS Não representa internações privadas não SUS

O Quadro 7.15 explicita que o indicador de ICSAP não nasce apenas da seleção de códigos CID. Ele combina lista diagnóstica, definição de território, denominador, idade, período e cobertura. A interpretação deve ser cautelosa: reduções ou aumentos podem refletir mudanças na atenção primária, mas também alterações no acesso hospitalar, na oferta de leitos, no perfil etário ou no registro das internações.

library(dplyr)

icsap_mun <- sih_p |>
  mutate(icsap = DIAG_PRINC %in% lista_icsap_cid10) |>
  group_by(MUNIC_RES) |>
  summarise(
    aih = n(),
    aih_icsap = sum(icsap, na.rm = TRUE),
    prop_icsap = aih_icsap / aih,
    .groups = "drop"
  )

icsap_mun
Nota

O objeto lista_icsap_cid10 representa uma lista previamente preparada de códigos CID-10 sensíveis à atenção primária. Em uma análise real, essa lista deve ser construída a partir da portaria ou de pacote específico e versionada com o código.

Linha do tempo do SIH

A linha do tempo sintetiza marcos institucionais e tecnológicos do SIH. Ela deve ser lida como apoio histórico para interpretar mudanças de cobertura, formato de arquivo, forma de captação e regras de processamento, especialmente quando a análise percorre períodos longos.

7.16 Acesso aos dados

Os dados do SIH podem ser acessados por diferentes caminhos, conforme o objetivo da análise (ver Quadro 7.16).

Quadro 7.16: Formas de acesso aos dados do SIH
Forma de acesso Indicação de uso
TabNet Tabulações rápidas e consultas agregadas
TabWin/DBC Transferência e tabulação local de arquivos do DATASUS
R Fluxos reprodutíveis com {microdatasus}
Python Fluxos reprodutíveis com PySUS
PCDaS Uso em ambiente de notebooks e infraestrutura de dados

As formas de acesso não são equivalentes. TabNet é útil para exploração rápida e conferência de totais; arquivos DBC favorecem reprodutibilidade e controle local; pacotes em R ou Python automatizam a transferência e o processamento; e ambientes como a PCDaS reduzem o custo de lidar com grandes volumes. A escolha depende do equilíbrio entre rapidez, transparência do método e escala da análise.

7.17 Processamento de grandes volumes

O SIH é disseminado em arquivos mensais por unidade federativa e pode crescer rapidamente em análises nacionais ou séries longas. Para trabalhos reprodutíveis, prefira ingestão incremental, armazenamento em formatos colunares e consultas que evitem carregar toda a base em memória (ver Quadro 7.17).

Quadro 7.17: Estratégias para processamento do SIH em escala
Estratégia Quando usar
Baixar por UF e mês Controle incremental e reprocessamento parcial
Padronizar nomes e tipos Evitar quebras entre anos
Salvar em Parquet Leitura rápida e compactação
Usar DuckDB Consultas locais em bases grandes
Registrar filtros Reprodutibilidade do indicador
Separar bruto e tratado Auditoria do processamento

Uma organização comum é manter os arquivos brutos imutáveis, gerar uma camada tratada com tipos padronizados e criar tabelas analíticas menores para cada pergunta. Isso reduz o risco de misturar competências, arquivos ou filtros.

7.17.1 TabNet

Os dados do SIH podem ser acessados no TabNet do DATASUS, na seção “Assistência à Saúde”.

7.17.2 TabWin e transferência de arquivos

Para uso no TabWin ou em fluxos próprios de processamento, é possível baixar arquivos de dados no formato DBC e arquivos auxiliares de tabulação no serviço de transferência de arquivos do DATASUS.

7.17.3 R

O pacote {microdatasus} permite baixar e pré-processar microdados do DATASUS em R (SALDANHA; BASTOS; BARCELLOS, 2019).

library(microdatasus)

sih_raw <- fetch_datasus(
  year_start = 2021,
  month_start = 1,
  year_end = 2021,
  month_end = 2,
  uf = "AC",
  information_system = "SIH-RD"
)

sih_p <- process_sih(sih_raw)

sih_p

7.17.4 Python

A biblioteca PySUS também permite acessar dados do SIH em fluxos de análise em Python.

7.17.5 PCDaS

Os dados do SIH estão disponíveis na Plataforma de Ciência de Dados aplicada à Saúde (PCDaS) para acesso em ambiente de notebooks.

7.18 Relacionamento com outros sistemas

O SIH é frequentemente combinado com outros sistemas para caracterizar rede, desfechos e denominadores. A integração pode ser feita por agregação territorial e temporal ou por relacionamento de registros, quando houver base legal, governança e identificadores adequados (ver Quadro 7.18).

Quadro 7.18: Integrações frequentes entre o SIH e outros sistemas
Pergunta Fontes combinadas Cuidado principal
Qual rede produziu internações? SIH + CNES (Capítulo 10) CNES muda ao longo do tempo
Houve óbito após internação? SIH + SIM (Capítulo 5) Óbito hospitalar não equivale a mortalidade total
A internação era por agravo notificado? SIH + SINAN (Capítulo 9) Harmonizar datas e definição de caso
Qual taxa de internação? SIH + POP (Apêndice D) Usar residência e população compatível
Qual carga assistencial além da internação? SIH + SIA (Capítulo 8) Separar atendimento ambulatorial e hospitalar

Em relacionamentos de registros, a unidade final de análise deve ser definida antes do pareamento. O objetivo pode ser identificar internações, pessoas, episódios, desfechos pós-alta ou trajetórias assistenciais. Cada objetivo exige regras diferentes para duplicidade, janelas temporais e discordâncias.

As combinações frequentes do Quadro 7.18 deixam claro que a integração raramente é apenas uma junção mecânica. Em análises agregadas, é preciso compatibilizar território e período. Em relacionamento de registros, entram também identificadores, governança, finalidade legítima, qualidade dos campos de pareamento e regras para registros sem correspondência.

7.19 Principais usos e indicadores

Segundo ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (2026), os dados do SIH são utilizados na construção de indicadores de morbidade hospitalar, produção e gasto. A ficha de cada indicador deve explicitar se conta AIHs, internações, procedimentos, valores ou pessoas.

Quadro 7.19: Exemplos de indicadores construídos com dados do SIH
Indicador Numerador principal Denominador ou cuidado
Proporção de internações por grupo de causas AIHs por diagnóstico principal Total de AIHs no mesmo recorte
Taxa de internação SUS AIHs de residentes População residente
Internações por causas externas AIHs com CID de causa externa Definir agrupamento CID
Internações por condições sensíveis à APS AIHs com CID na lista ICSAP Usar lista oficial ou método versionado
Permanência média Dias de permanência Interpretar por procedimento e perfil hospitalar
Letalidade hospitalar AIHs com óbito hospitalar Não equivale à mortalidade populacional
Valor médio da AIH Valor total aprovado Não representa custo real total

Os indicadores do Quadro 7.19 usam o mesmo sistema, mas não têm a mesma interpretação. Taxas dependem de denominadores populacionais; proporções dependem do conjunto de AIHs usado como referência; letalidade hospitalar se restringe ao desfecho da internação; e valores médios expressam remuneração aprovada. A ficha técnica do indicador deve deixar explícito o numerador, o denominador, os filtros e a unidade territorial.

Consulte a 3ª edição de Indicadores básicos para a saúde no Brasil: conceitos e aplicações, publicada pela OPAS em 2026 (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2026), para as fichas de qualificação atualizadas desses e de outros indicadores.

7.20 Cuidados de interpretação

Ao utilizar o SIH, alguns cuidados são recorrentes:

  • Distinguir AIH, internação, procedimento e pessoa;
  • Lembrar que a cobertura é SUS e rede conveniada, não todo o setor hospitalar;
  • Separar residência do paciente e ocorrência da internação;
  • Diferenciar competência, data de internação e data de saída;
  • Verificar se o arquivo usado é RD, SP, RJ ou ER;
  • Interpretar valores como remuneração registrada, não custo econômico total;
  • Avaliar mudanças em regras de autorização, tabelas, procedimentos e críticas;
  • Verificar completitude e consistência de diagnóstico, procedimento, idade, sexo, município e estabelecimento.
Quadro 7.20: Checklist de qualidade para análises com SIH
Checagem Por que importa
Arquivo utilizado RD, SP e rejeições respondem a perguntas diferentes
Duplicidade de AIH Pode superestimar internações ou episódios
Diagnóstico e procedimento Podem expressar lógicas clínicas e administrativas distintas
Residência e ocorrência Define corretamente risco e produção
Competência e datas assistenciais Evita distorções em séries temporais
CNES e município Estabelecimentos mudam de perfil, gestão e vínculo
Valores extremos Podem indicar procedimentos específicos ou erro

O checklist do Quadro 7.20 deve ser usado antes da interpretação substantiva. Ele ajuda a separar problemas de processamento de achados reais: uma mudança abrupta pode ser efeito de filtros, duplicidade, alteração de procedimento, quebra de competência ou mudança no estabelecimento. Só depois dessas verificações faz sentido discutir hipóteses assistenciais, epidemiológicas ou de gestão.

Aviso

Erros comuns incluem contar AIHs como pessoas, calcular taxas com internações por ocorrência e população residente, comparar valores pagos como se fossem custos totais, misturar arquivos aprovados e rejeitados, e interpretar óbito hospitalar como mortalidade populacional.

7.21 Bibliografia recomendada

7.21.1 Documentos auxiliares

7.21.2 Vídeos

7.21.3 Avaliação da qualidade dos dados

7.22 Veja também