flowchart TD SIS[Sistemas de Informacao em Saude] SIS --> Vitais[Sistemas vitais] SIS --> Vig[Vigilancia e morbidade] SIS --> Assist[Assistencia] SIS --> Gestao[Cadastro, gestao e financiamento] SIS --> Imun[Imunizacao] SIS --> Supl[Saude suplementar] Vitais --> SIM[SIM] Vitais --> SINASC[SINASC] Vig --> SINAN[SINAN] Vig --> SIVEP[SIVEP] Vig --> SISAGUA[SISAGUA] Assist --> SIH[SIH] Assist --> SIA[SIA] Gestao --> CNES[CNES] Gestao --> SIOPS[SIOPS] Gestao --> SISAPS[SISAB/SISAPS] Imun --> SIPNI[SI-PNI] Supl --> ANS[ANS]
3 Organização dos SIS
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Os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) brasileiros podem ser organizados de diferentes formas. Uma mesma base pode ser classificada segundo o evento registrado, a finalidade institucional, a cobertura populacional, a unidade de análise, a periodicidade de disseminação ou o nível de detalhamento disponível (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009).
Essa organização é importante porque evita uma leitura equivocada dos dados. Antes de buscar uma base, é preciso perguntar: qual evento de saúde está sendo observado? Esse evento ocorre em toda a população ou apenas na rede pública do SUS? A base registra indivíduos, procedimentos, estabelecimentos, equipes ou valores financeiros? O dado é preliminar ou consolidado?
3.1 Critérios de organização
Neste livro, os SIS são apresentados a partir de quatro critérios principais:
| Critério | Pergunta orientadora | Exemplos |
|---|---|---|
| Evento de saúde | O que aconteceu? | Nascimento, óbito, internação, notificação, vacinação |
| Finalidade institucional | Para que o sistema foi criado? | Vigilância, assistência, cadastro, financiamento, gestão |
| Cobertura | Quem ou o que entra na base? | Todo o território nacional, rede pública do SUS, saúde suplementar |
| Unidade de análise | O que cada linha ou registro representa? | Pessoa, declaração, procedimento, estabelecimento, equipe, lançamento contábil |
Esses critérios se complementam. O Sistema de Informações Hospitalares (SIH) (Capítulo 7), por exemplo, registra internações, tem origem administrativa e financeira, cobre internações realizadas no SUS e utiliza a Autorização de Internação Hospitalar (AIH) como unidade central de análise. Já o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) (Capítulo 5) registra óbitos, cobre todo o território nacional e tem como documento básico a Declaração de Óbito.
Para uma comparação tabular dos principais sistemas, com ano de criação, unidade de análise, cobertura e periodicidade de disseminação, consulte o Quadro Resumo (Apêndice A).
3.2 Esquema geral
O esquema a seguir resume uma forma prática de agrupar os SIS abordados neste livro.
3.3 Sistemas vitais
Os sistemas vitais registram eventos diretamente relacionados ao início e ao fim da vida. No Brasil, os principais são o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) (Capítulo 5) e o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC) (Capítulo 6).
A implantação desses sistemas está associada à reorganização das estatísticas vitais brasileiras e à padronização de documentos nacionais: a Declaração de Óbito (DO) e a Declaração de Nascido Vivo (DNV). Esses documentos conectam serviços de saúde, famílias, cartórios, secretarias municipais e Ministério da Saúde (SENNA, 2009; VIACAVA, 2009).
| Sistema | Evento registrado | Documento básico | Cobertura |
|---|---|---|---|
| SIM (Capítulo 5) | Óbitos, incluindo óbitos fetais | Declaração de Óbito | Todo o território nacional |
| SINASC (Capítulo 6) | Nascidos vivos | Declaração de Nascido Vivo | Todo o território nacional |
Os sistemas vitais são fundamentais para indicadores demográficos e epidemiológicos, como mortalidade infantil, mortalidade materna, esperança de vida, fecundidade, condições do nascimento e causas de morte.
3.4 Sistemas de morbidade e vigilância
Os sistemas de morbidade e vigilância registram doenças, agravos, eventos de interesse sanitário e situações que exigem acompanhamento do sistema de saúde. O principal sistema desse grupo é o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) (Capítulo 9), responsável por registrar casos suspeitos e confirmados de doenças e agravos de notificação compulsória (CAETANO, 2009).
Também entram nesse conjunto sistemas e subsistemas de vigilância específicos, como o Sistema de Vigilância Epidemiológica (SIVEP) (Apêndice E), que possui componentes voltados a agravos ou síndromes específicos, e o Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA) (Capítulo 11).
| Sistema | Foco principal | Observação |
|---|---|---|
| SINAN (Capítulo 9) | Doenças e agravos de notificação compulsória | Registra casos suspeitos, investigação, classificação final e desfecho |
| SIVEP (Apêndice E) | Vigilância de agravos ou síndromes específicas | Inclui subsistemas com regras próprias de notificação |
| SISAGUA (Capítulo 11) | Qualidade da água para consumo humano | Relaciona vigilância ambiental e saúde pública |
Esses sistemas são especialmente importantes para monitoramento de epidemias, investigação de surtos, vigilância de agravos e planejamento de ações de prevenção e controle.
3.5 Sistemas assistenciais
Os sistemas assistenciais registram ações realizadas nos serviços de saúde. Dois sistemas são centrais nesse grupo: o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH) (Capítulo 7) e o Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA) (Capítulo 8).
O SIH registra internações financiadas pelo SUS, enquanto o SIA registra produção ambulatorial, incluindo consultas, procedimentos, exames, terapias e ações de apoio diagnóstico e terapêutico. Ambos têm origem administrativa, mas são amplamente utilizados em análises epidemiológicas, avaliação de serviços e estudos sobre acesso à atenção à saúde (PEPE, 2009).
| Sistema | Evento ou produção registrada | Unidade central | Cobertura |
|---|---|---|---|
| SIH (Capítulo 7) | Internações hospitalares | Autorização de Internação Hospitalar (AIH) | Rede pública e conveniada ao SUS |
| SIA (Capítulo 8) | Procedimentos ambulatoriais | APAC, BPA e outros instrumentos de produção | Rede pública e conveniada ao SUS |
Uma diferença importante em relação a SIM, SINASC e SINAN é que SIH e SIA não cobrem toda a assistência realizada no país. Eles registram a produção vinculada ao SUS, deixando de fora atendimentos realizados exclusivamente na saúde suplementar ou no setor privado não financiado pelo SUS.
3.6 Sistemas cadastrais, financeiros e de gestão
Além dos sistemas que registram eventos diretamente ligados à saúde das pessoas, há bases voltadas à estrutura, ao financiamento e à gestão do sistema de saúde.
O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) (Capítulo 10) descreve estabelecimentos, profissionais, equipamentos e serviços existentes no território nacional. Ele é uma base estruturante, pois ajuda a interpretar a oferta de serviços e a capacidade instalada do sistema de saúde.
O Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde (SIOPS) (Capítulo 12) registra informações orçamentárias e financeiras, permitindo acompanhar receitas, despesas e cumprimento de regras de aplicação de recursos em saúde.
O Sistema de Informação da Atenção Primária à Saúde (SISAPS/Siaps) (Capítulo 13), em transição a partir do SISAB, organiza informações da APS, incluindo equipes, vínculo territorial, produção e indicadores relacionados à estratégia e-SUS APS.
| Sistema | Tipo de informação | Uso frequente |
|---|---|---|
| CNES (Capítulo 10) | Estabelecimentos, profissionais, equipamentos e serviços | Análise da oferta e da estrutura da rede de saúde |
| SIOPS (Capítulo 12) | Orçamentos, receitas e despesas em saúde | Monitoramento do financiamento público da saúde |
| SISAB/SISAPS (Capítulo 13) | Produção, vínculo territorial e indicadores da APS | Gestão, monitoramento, cofinanciamento e avaliação da APS |
3.7 Sistemas de imunização
As ações de vacinação são registradas no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) (Capítulo 14). Sua função é apoiar o monitoramento de doses aplicadas, coberturas vacinais, campanhas e registros de imunização.
Historicamente, a vacinação foi acompanhada por dados agregados e instrumentos de consolidação periódica. Com a evolução dos sistemas digitais, ganhou importância o registro individualizado das doses aplicadas, o que permite análises mais detalhadas, mas também exige maior cuidado com duplicidades, perdas de registro e consistência entre bases (MORAES et al., 2024).
3.8 Cobertura: todo o território, SUS e saúde suplementar
Um ponto central na organização dos SIS é a cobertura. Alguns sistemas buscam registrar eventos ocorridos em todo o território nacional, independentemente de terem acontecido em serviços públicos, privados, filantrópicos ou suplementares. É o caso de SIM (Capítulo 5), SINASC (Capítulo 6), SINAN (Capítulo 9), CNES (Capítulo 10) e SISAGUA (Capítulo 11), ainda que cada um tenha suas próprias regras e limitações de cobertura.
Outros sistemas registram principalmente eventos, produção ou gestão vinculados à dimensão pública do SUS, incluindo rede própria e rede conveniada. SIH (Capítulo 7), SIA (Capítulo 8), SIOPS (Capítulo 12), SISAB/SISAPS (Capítulo 13) e SI-PNI (Capítulo 14) devem ser interpretados com essa delimitação em mente.
Dados sobre a saúde suplementar são produzidos e disseminados pela ANS (Apêndice G). Por isso, perguntas sobre utilização de serviços privados, cobertura de planos, beneficiários e produção assistencial da saúde suplementar exigem bases específicas, não apenas os sistemas do DataSUS.
3.9 Níveis geográficos
A maior parte dos SIS permite análises territoriais, mas o significado do território varia conforme o campo utilizado. Em alguns sistemas, é possível distinguir município de residência, município de ocorrência, município de atendimento, município de notificação e município do estabelecimento. Esses campos respondem a perguntas diferentes.
| Campo territorial | Pergunta respondida | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Residência | Onde vive a pessoa? | Risco populacional e perfil dos residentes |
| Ocorrência | Onde o evento aconteceu? | Local do óbito, nascimento ou agravo |
| Atendimento | Onde o cuidado foi prestado? | Fluxos assistenciais e acesso a serviços |
| Notificação | Onde o caso foi registrado? | Capacidade local de vigilância |
| Estabelecimento | Qual serviço produziu o registro? | Oferta, produção e estrutura da rede |
Confundir esses campos pode mudar completamente a interpretação. Uma internação registrada em uma capital pode se referir a uma pessoa residente em outro município; uma notificação pode ocorrer em local diferente do provável local de infecção; e um óbito pode ocorrer fora do município de residência.
3.10 Periodicidade e versões dos dados
Os SIS também diferem quanto à periodicidade de disseminação. Alguns sistemas são disseminados anualmente, após processos mais longos de crítica e consolidação. Outros têm atualização mensal ou disponibilizam registros preliminares em prazos menores.
| Tipo de dado | Característica | Cuidado |
|---|---|---|
| Preliminar | Mais oportuno | Pode ter incompletude e revisão posterior |
| Consolidado | Mais revisado | Costuma chegar com maior defasagem |
| Mensal | Útil para monitoramento contínuo | Pode variar por atraso de envio |
| Anual | Útil para séries consolidadas | Menos adequado para resposta imediata |
Na análise, a escolha entre dado preliminar e consolidado depende da pergunta. Monitoramento de uma situação em curso pode exigir dados mais oportunos, mesmo com incerteza maior. Estudos retrospectivos, indicadores oficiais e séries históricas geralmente se beneficiam de bases consolidadas.
3.11 Unidade de análise
Outro cuidado fundamental é identificar a unidade de análise. Uma linha em uma base pode representar uma pessoa, um evento, uma autorização, um procedimento, um estabelecimento, uma equipe ou um lançamento financeiro. Confundir essas unidades leva a interpretações incorretas.
| Sistema | Unidade de análise típica | Cuidado de interpretação |
|---|---|---|
| SIM (Capítulo 5) | Declaração de Óbito (DO) | Um registro representa um óbito |
| SINASC (Capítulo 6) | Declaração de Nascido Vivo (DN) | Um registro representa um nascido vivo |
| SINAN (Capítulo 9) | Ficha de notificação | Nem toda notificação é caso confirmado |
| SIH (Capítulo 7) | Autorização de Internação Hospitalar (AIH) | Uma pessoa pode ter mais de uma AIH |
| SIA (Capítulo 8) | Procedimento ou instrumento de produção | Uma pessoa pode gerar múltiplos procedimentos |
| CNES (Capítulo 10) | Estabelecimento ou recurso | A unidade varia conforme o arquivo |
| SIOPS (Capítulo 12) | Informação orçamentária | Depende do ente federado e período |
3.12 Doenças, agravos e eventos de saúde
É importante destacar que os diferentes SIS são organizados principalmente por eventos de saúde, e não por doenças e agravos. Eventos de saúde incluem nascimentos, óbitos, internações, atendimentos ambulatoriais, notificações de casos suspeitos, imunizações, cadastros de estabelecimentos e registros financeiros.
Assim, ao estudar uma doença ou agravo, o primeiro passo é identificar quais eventos ela pode produzir e quais sistemas registram cada evento. Uma mesma doença pode aparecer no SINAN como notificação, no SIH como internação, no SIA como procedimento ambulatorial e no SIM como óbito.
3.13 Como escolher o sistema
A tabela a seguir resume escolhas frequentes de acordo com o tipo de pergunta. Ela não substitui a leitura dos capítulos específicos, mas ajuda a direcionar a busca inicial.
| Pergunta | Sistema mais provável | Observação |
|---|---|---|
| Quantos óbitos ocorreram? | SIM (Capítulo 5) | Ver causa básica, residência e ocorrência |
| Quantos nascimentos ocorreram? | SINASC (Capítulo 6) | Útil para indicadores materno-infantis |
| Quantos casos foram notificados? | SINAN (Capítulo 9) | Separar suspeitos, confirmados e descartados |
| Quantas internações ocorreram no SUS? | SIH (Capítulo 7) | Não representa toda a rede privada |
| Quantos procedimentos ambulatoriais foram feitos no SUS? | SIA (Capítulo 8) | Pessoa e procedimento não são equivalentes |
| Onde estão os estabelecimentos e serviços? | CNES (Capítulo 10) | Observar competência e tipo de arquivo |
| Como acompanhar gastos públicos em saúde? | SIOPS (Capítulo 12) | Comparar ente federado e período |
| Como analisar vacinação? | SI-PNI (Capítulo 14) | Ver registro individual, doses e cobertura |
| Como analisar saúde suplementar? | ANS (Apêndice G) | Usar bases específicas da ANS |
3.14 Exemplo: dengue
A dengue ilustra por que uma doença não corresponde a um único sistema. Dependendo da pergunta, a análise pode exigir bases diferentes:
| Evento relacionado à dengue | Sistema | Pergunta possível |
|---|---|---|
| Caso suspeito ou confirmado | SINAN (Capítulo 9) | Como evoluem as notificações e confirmações? |
| Atendimento ou exame ambulatorial | SIA (Capítulo 8) | Que procedimentos foram realizados no SUS? |
| Internação por dengue | SIH (Capítulo 7) | Quantos casos graves demandaram hospitalização? |
| Óbito por dengue | SIM (Capítulo 5) | Quantas mortes tiveram dengue como causa básica? |
| Estabelecimentos envolvidos | CNES (Capítulo 10) | Onde estão os serviços que notificam ou atendem? |
Esse raciocínio vale para outros temas. Acidentes de trânsito, COVID-19, agravos relacionados ao trabalho, saúde materno-infantil e doenças crônicas podem aparecer em múltiplos SIS, cada um registrando um aspecto diferente do fenômeno.
Erros comuns ao utilizar SIS incluem tratar AIH como pessoa única, contar notificações do SINAN como casos confirmados sem filtrar a classificação final, usar SIH e SIA como se representassem toda a assistência pública e privada do país, ignorar município de residência versus município de atendimento, comparar bases preliminares com bases consolidadas sem cautela e desconsiderar mudanças de layout ou definição ao longo do tempo.
O capítulo a seguir detalha o que são eventos de saúde e como eles se relacionam com os principais SIS.