flowchart LR sint[Sintomas] --> atend[Atendimento ambulatorial] atend --> notif[Notificacao de caso suspeito] notif --> invest[Investigacao e classificacao] atend --> intern[Internacao hospitalar] intern --> alta[Alta] intern --> obito[Obito] atend -.-> SIA[SIA] notif -.-> SINAN[SINAN] invest -.-> SINAN intern -.-> SIH[SIH] obito -.-> SIM[SIM]
4 Eventos de saúde
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Os dados dos Sistemas de Informação em Saúde (SIS) descrevem, em geral, eventos de interesse à saúde. Um evento é uma ocorrência delimitada no tempo, no espaço e em uma unidade de análise: um nascimento, um óbito, uma internação, uma notificação, um atendimento ambulatorial, uma dose de vacina aplicada ou um procedimento realizado.
Essa forma de pensar é essencial para escolher corretamente a base de dados. Ao estudar uma doença, agravo ou problema de saúde, a pergunta inicial não deve ser apenas “qual sistema tem dados sobre esse tema?”, mas sim: quais eventos esse tema pode produzir?
4.1 Do problema de saúde ao evento registrado
Uma doença ou agravo pode gerar vários eventos ao longo do cuidado. Cada evento tem uma lógica própria de registro, uma unidade de análise e uma utilidade analítica.
| Pergunta | Evento de saúde | Sistema mais provável |
|---|---|---|
| Houve suspeita ou confirmação de uma doença de notificação? | Notificação e investigação | SINAN (Capítulo 9) |
| Houve atendimento, exame ou procedimento no SUS? | Procedimento ambulatorial | SIA (Capítulo 8) |
| Houve agravamento com hospitalização no SUS? | Internação hospitalar | SIH (Capítulo 7) |
| Houve óbito? | Óbito | SIM (Capítulo 5) |
| Houve nascimento? | Nascimento vivo | SINASC (Capítulo 6) |
| Houve vacinação? | Dose aplicada ou registro de imunização | SI-PNI (Capítulo 14) |
Essa separação evita interpretações equivocadas. Um aumento de notificações no SINAN pode refletir maior transmissão, maior sensibilidade da vigilância, mudança na definição de caso ou melhora na notificação. Da mesma forma, internações no SIH informam casos atendidos na rede SUS, mas não representam todos os casos graves ocorridos no país.
4.2 Ciclo de um evento
Entre a ocorrência de um evento e sua transformação em dado analisável, há várias etapas. Cada etapa pode gerar datas, campos e atrasos próprios.
| Etapa | O que representa | Campo ou registro típico | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Ocorrência | Evento aconteceu | nascimento, sintomas, óbito, atendimento | Nem sempre é observado diretamente |
| Registro inicial | Serviço toma conhecimento | ficha, declaração, autorização | Pode ocorrer com atraso |
| Investigação ou crítica | Informação é validada | classificação, causa, consistência | Pode mudar a interpretação |
| Digitação ou envio | Dado entra no fluxo do sistema | data de digitação ou transmissão | Mede fluxo administrativo |
| Consolidação | Base é revisada | dados consolidados | Pode alterar valores preliminares |
| Disseminação | Dado fica disponível | TabNet, microdados, OpenDataSUS | Depende de periodicidade e versão |
4.3 Evento, pessoa, episódio e registro
Um evento de saúde não é sempre equivalente a uma pessoa. Uma pessoa pode gerar vários eventos ao longo do tempo, como consultas, exames, notificações, internações e óbitos. Um episódio de cuidado também pode gerar mais de um registro, especialmente em sistemas assistenciais.
Essa distinção é central para análise. No SIA (Capítulo 8), uma pessoa pode aparecer em múltiplos procedimentos. No SIH (Capítulo 7), uma pessoa pode ter mais de uma AIH em períodos diferentes ou em um mesmo processo de cuidado. No SINAN (Capítulo 9), um registro pode se referir a um caso suspeito que será posteriormente descartado. No SIM (Capítulo 5), cada registro corresponde a um óbito.
4.4 Exemplo integrado: dengue
A dengue é um bom exemplo porque pode produzir múltiplos eventos de saúde. A Figura 4.1 resume uma trajetória possível.
| Evento | Sistema | O que permite analisar |
|---|---|---|
| Atendimento ou exame | SIA (Capítulo 8) | Produção ambulatorial, exames e procedimentos no SUS |
| Notificação de caso suspeito | SINAN (Capítulo 9) | Suspeitas, investigação, confirmação e descarte |
| Internação | SIH (Capítulo 7) | Casos graves atendidos na rede hospitalar do SUS |
| Óbito | SIM (Capítulo 5) | Mortalidade por causa básica e condições associadas |
O mesmo raciocínio pode ser usado para acidentes de trânsito, violência, COVID-19, tuberculose, doenças crônicas, saúde materno-infantil e outros temas.
4.5 Exemplo integrado: acidente de trânsito
Um acidente de trânsito mostra que a lógica de eventos não se limita às doenças de notificação. Dependendo da gravidade e do percurso assistencial, o mesmo problema pode aparecer em sistemas distintos.
| Evento relacionado ao acidente | Sistema | O que permite analisar |
|---|---|---|
| Atendimento ambulatorial ou procedimento | SIA (Capítulo 8) | Produção de cuidado, exames e procedimentos no SUS |
| Internação por lesão | SIH (Capítulo 7) | Gravidade, tempo de internação e uso da rede hospitalar SUS |
| Óbito por causa externa | SIM (Capítulo 5) | Mortalidade por acidentes de transporte e circunstâncias do óbito |
| Estabelecimento de atendimento | CNES (Capítulo 10) | Estrutura e localização dos serviços envolvidos |
Nesse tipo de tema, a causa externa, o local de ocorrência, o tipo de vítima, o tipo de lesão e o serviço de atendimento podem estar distribuídos entre diferentes bases. A análise depende de reconhecer qual dimensão do problema cada sistema registra.
4.6 Casos de doenças e agravos
Um dos usos mais tradicionais dos SIS é o acompanhamento de doenças e agravos na população. No Brasil, a notificação de doenças, agravos e eventos de saúde pública segue listas e normas específicas, e os casos suspeitos são registrados para permitir resposta oportuna da vigilância em saúde.
Agravos de saúde incluem não apenas doenças, mas também eventos que afetam a saúde da população, como violências, acidentes, intoxicações, desnutrição, exposição a poluentes e eventos adversos.
Os casos são geralmente registrados primeiro como suspeitos. Após investigação, podem ser classificados como confirmados, descartados, inconclusivos ou permanecer em acompanhamento, dependendo do agravo, da disponibilidade de exames, dos critérios clínicos e das regras de vigilância.
No SINAN (Capítulo 9), uma ficha de notificação pode conter informações como:
- caracterização da pessoa;
- município e UF de residência;
- município e UF de notificação;
- local provável de infecção, quando aplicável;
- datas de início dos sintomas, notificação, investigação e digitação;
- critérios de confirmação ou descarte;
- evolução e desfecho.
4.6.1 Lugar de residência, infecção e notificação
As informações territoriais têm sentidos diferentes. O município de residência descreve onde a pessoa vive. O local provável de infecção ajuda a entender a transmissão. O município de notificação indica onde o sistema de saúde tomou conhecimento do caso.
Um exemplo: uma pessoa residente no Rio de Janeiro, RJ, viaja ao Oiapoque, AP, onde provavelmente se infecta por malária, e procura atendimento em Belém, PA. A residência, o local provável de infecção e o local de notificação são distintos. Essa diferença é fundamental para análises espaciais e para orientar ações de vigilância.
Um caso autóctone ocorre quando o local provável de infecção coincide com o território analisado, como o município de residência ou o município em investigação. Um caso alóctone ocorre quando a infecção provavelmente aconteceu em outro território.
4.6.2 Datas e atraso de notificação
As datas registradas no sistema também respondem a perguntas diferentes. A data dos primeiros sintomas se aproxima do início clínico do caso. A data de notificação indica quando o serviço ou a vigilância registrou o caso. A data de digitação ou envio informa parte do funcionamento administrativo do sistema.
A quantidade de casos notificados em determinada data não equivale necessariamente à quantidade de casos ocorridos naquela data. O atraso de notificação é o intervalo entre a ocorrência ou conhecimento do evento e sua entrada no sistema.
Em epidemias e desastres, esse atraso pode aumentar porque os serviços precisam conciliar atendimento à população, investigação, preenchimento de fichas, digitação e envio de dados. Estratégias de nowcasting procuram estimar a situação atual corrigindo parcialmente esse atraso (CODECO et al., 2018).
4.7 Procedimentos ambulatoriais
Procedimentos ambulatoriais incluem consultas, exames, terapias, atendimentos especializados, ações de diagnóstico e outros procedimentos realizados sem internação. Esses eventos são registrados no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA) (Capítulo 8).
No SIA, a unidade de análise costuma ser o procedimento ou instrumento de produção, não a pessoa. Uma mesma pessoa pode gerar múltiplos registros em um mesmo episódio de cuidado. Por isso, o SIA é especialmente útil para estudar produção, oferta, volume de procedimentos, acesso a exames e uso de serviços ambulatoriais no SUS.
Ao analisar SIA, evite interpretar diretamente o número de procedimentos como número de pessoas atendidas. A equivalência depende do procedimento, da forma de registro e da pergunta de análise.
4.8 Internações
Internações são eventos de cuidado hospitalar, geralmente associados a quadros que exigem acompanhamento contínuo, procedimentos hospitalares, tratamento intensivo ou maior complexidade assistencial. No SUS, são registradas no Sistema de Informações Hospitalares (SIH) (Capítulo 7), tendo a Autorização de Internação Hospitalar (AIH) como instrumento central (PEPE, 2009).
O evento de internação pode sinalizar maior gravidade, dificuldade de acesso a cuidados oportunos, falhas de prevenção ou necessidade de serviços especializados. Entretanto, o SIH registra internações financiadas pelo SUS, não todas as internações ocorridas no país.
Algumas internações podem ser evitadas por uma Atenção Primária à Saúde efetiva. Em 17 de abril de 2008, a Portaria n. 221 do Ministério da Saúde publicou a lista brasileira de Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária, com códigos da Classificação Internacional de Doenças e Agravos (CID) úteis para monitoramento e avaliação (BRASIL, 2008).
O pacote {csapAIH} do R facilita a classificação de registros de internações segundo essa lista (NEDEL, 2019).
4.9 Óbitos
O óbito é um evento vital e epidemiológico central. Os óbitos são registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) (Capítulo 5), a partir da Declaração de Óbito. Esse sistema permite estudar mortalidade por idade, sexo, raça/cor, município de residência, município de ocorrência e causa de morte.
Uma definição importante é a causa básica do óbito: a doença, agravo ou circunstância que iniciou a cadeia de eventos que levou diretamente à morte. Essa definição permite padronizar estatísticas de mortalidade por causa e comparar territórios e períodos (BRASIL, 2022; WHO, 2026).
Óbitos evitáveis podem indicar falhas de prevenção, acesso, diagnóstico, tratamento ou organização da rede de atenção. Ainda assim, sua interpretação depende da qualidade do preenchimento da Declaração de Óbito e da codificação das causas.
4.10 Nascimentos
O nascimento de uma criança é um evento de saúde que envolve o recém-nascido, a pessoa gestante, a assistência ao pré-natal, o parto e as condições do nascimento. Os nascidos vivos são registrados no Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC) (Capítulo 6), a partir da Declaração de Nascido Vivo.
Nascido vivo é a expulsão ou extração completa do corpo da mãe, independente da duração da gravidez, de um produto da concepção que, depois da separação, respire ou apresente qualquer outro sinal de vida, independente de sua viabilidade (VIACAVA, 2009).
O SINASC permite analisar peso ao nascer, idade gestacional, tipo de parto, características da mãe, local de ocorrência e outros elementos importantes para a saúde materno-infantil. Óbitos fetais, por outro lado, são registrados no SIM (Capítulo 5).
4.11 Imunizações
A vacinação é um evento de prevenção. Os registros de doses aplicadas e informações relacionadas às campanhas e esquemas vacinais são organizados no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) (Capítulo 14).
Ao analisar imunizações, é importante distinguir doses aplicadas, pessoas vacinadas, esquemas completos e coberturas vacinais. A cobertura depende tanto do numerador, obtido a partir dos registros de vacinação, quanto do denominador populacional utilizado.
4.12 Denominadores e indicadores
Muitos indicadores combinam eventos registrados em um SIS com denominadores vindos de outra fonte. O numerador costuma ser uma contagem de eventos; o denominador define a população, o conjunto de nascidos vivos, o número de internações, a população-alvo ou outra base de comparação.
| Indicador | Numerador | Denominador |
|---|---|---|
| Mortalidade infantil | Óbitos em menores de um ano no SIM | Nascidos vivos no SINASC |
| Cobertura vacinal | Doses aplicadas no SI-PNI | População-alvo ou estimativa populacional |
| Taxa de internação | Internações no SIH | População residente |
| Letalidade entre notificados | Óbitos entre casos | Casos notificados ou confirmados |
| Proporção de procedimentos | Procedimentos selecionados no SIA | Total de procedimentos comparáveis |
Escolher o denominador incorreto pode distorcer a interpretação. Taxas populacionais dependem de estimativas populacionais (Apêndice D); indicadores materno-infantis frequentemente dependem do SINASC; e proporções internas de um sistema dependem da definição clara do conjunto de registros comparáveis.
4.13 Relacionamento entre sistemas
Algumas perguntas exigem combinar bases. O relacionamento entre sistemas pode ser determinístico, quando há identificadores comuns suficientes, ou probabilístico, quando é necessário combinar campos como nome, data de nascimento, sexo, município e datas de eventos.
| Pergunta | Sistemas possivelmente envolvidos | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Óbitos infantis entre nascidos vivos | SINASC e SIM | Estudar mortalidade infantil e neonatal |
| Desfechos fatais de casos notificados | SINAN e SIM | Investigar mortes entre casos de agravos |
| Internações após notificação | SINAN e SIH | Avaliar gravidade e uso hospitalar |
| Produção de serviços por estabelecimento | SIA/SIH e CNES | Relacionar produção e estrutura da rede |
O relacionamento entre bases amplia as possibilidades analíticas, mas exige atenção à privacidade, qualidade dos campos identificadores, perdas de pareamento, duplicidades e diferenças temporais entre sistemas.
4.14 Relação entre eventos e perguntas de análise
| Tema de interesse | Evento observado | Sistema | Cuidado principal |
|---|---|---|---|
| Mortalidade infantil | Nascimento e óbito infantil | SINASC e SIM | Relacionar numerador e denominador adequados |
| Dengue grave | Notificação, internação e óbito | SINAN, SIH e SIM | Não misturar suspeitos, internados e óbitos |
| Acesso hospitalar | Internação | SIH | Considerar apenas internações SUS |
| Produção de exames | Procedimento ambulatorial | SIA | Procedimentos não equivalem a pessoas |
| Cobertura vacinal | Dose aplicada e população-alvo | SI-PNI e POP (Apêndice D) | Avaliar registros e denominadores |
4.15 Cuidados de interpretação
Ao trabalhar com eventos de saúde, alguns cuidados são recorrentes:
- identificar se a base registra evento, pessoa, procedimento, autorização ou documento;
- separar casos suspeitos, confirmados, descartados e inconclusivos;
- distinguir município de residência, ocorrência, atendimento e notificação;
- verificar se a cobertura é nacional, SUS, rede conveniada ou saúde suplementar;
- observar se os dados são preliminares ou consolidados;
- considerar atrasos de notificação, digitação e disseminação;
- checar mudanças históricas de fichas, variáveis, códigos e definições.
Erros frequentes incluem usar data de notificação como se fosse data de início dos sintomas, contar procedimentos como pessoas, somar casos suspeitos e confirmados sem distinguir classificação final, misturar município de residência com município de ocorrência ou atendimento, interpretar internações do SIH como todas as internações do país e comparar dados preliminares com dados consolidados sem observar a versão da base.
Os capítulos seguintes apresentam os principais SIS brasileiros com detalhes sobre sua criação, organização, estrutura de dados, formas de acesso, usos, indicadores e cuidados específicos.