Apêndice E — Inquéritos e pesquisas de saúde

Inquéritos e pesquisas amostrais complementam os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) ao produzir dados que não nascem rotineiramente nos serviços. Eles permitem investigar condições de vida, comportamentos, fatores de risco e proteção, percepção do estado de saúde, acesso e uso de serviços, cobertura por planos e experiências de violência ou acidentes.

Este apêndice apresenta quatro referências centrais para a análise da saúde no Brasil: a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), os suplementos de saúde da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e o Inquérito de Violências e Acidentes em Serviços Sentinela de Urgência e Emergência (VIVA Inquérito).

Quadro E.1: Características gerais das pesquisas abordadas
Fonte Desenho central População ou universo observado Abrangência principal Periodicidade ou edições
PNS Inquérito domiciliar probabilístico Moradores de domicílios particulares; questionário individual para morador selecionado Nacional, com domínios geográficos definidos no plano 2013, 2019 e coleta de 2026
PNAD — suplementos de saúde Inquérito domiciliar probabilístico de propósito múltiplo Moradores dos domicílios da amostra da PNAD Nacional, com limites variáveis nas edições históricas Suplementos e pesquisas especiais; série de saúde de 1998, 2003 e 2008
Vigitel Inquérito telefônico probabilístico Pessoas com 18 anos ou mais contatadas por linhas sorteadas Historicamente, capitais e Distrito Federal Anual desde 2006; sem coleta em 2022
VIVA Inquérito Inquérito transversal em serviços sentinela Atendimentos por violências e acidentes em turnos e serviços selecionados Serviços de urgência e emergência participantes 2006, 2007, 2009, 2011, 2014, 2017 e 2024

O Quadro E.1 evidencia que a palavra “inquérito” não identifica um único desenho. PNS e PNAD partem de domicílios; o Vigitel parte de linhas telefônicas; o VIVA Inquérito parte de atendimentos em serviços selecionados. População-alvo, unidade de observação e possibilidade de inferência precisam ser definidas separadamente para cada fonte.

E.1 Inquéritos e sistemas de informação

SIS de registro contínuo, como SIM, SINASC, SINAN, SIH/SUS e SIA/SUS, procuram captar eventos ou processos administrativos conforme regras institucionais. Inquéritos selecionam uma amostra e fazem perguntas padronizadas em determinado período. Essa diferença muda o significado da ausência de registro, do denominador e da incerteza.

Quadro E.2: Diferenças gerais entre inquéritos e sistemas de informação contínuos
Dimensão Inquérito ou pesquisa amostral Sistema de informação contínuo
Entrada de dados Entrevista, aferição ou formulário aplicado à amostra Registro de evento, atendimento, cadastro ou processo administrativo
Cobertura Definida pelo plano amostral e pela resposta Definida por norma, fluxo institucional e capacidade de registro
Denominador População representada pelos pesos ou universo sentinela Eventos, pessoas, procedimentos ou população externa, conforme o indicador
Incerteza Erro amostral, não resposta e erro de mensuração Sub-registro, duplicidade, atraso, erro de preenchimento e mudança de fluxo
Frequência Periódica, anual ou eventual Contínua, mensal, anual ou por competência
Melhor uso Prevalências, comportamentos, percepção, acesso e desigualdades Contagem e acompanhamento de eventos, produção, cadastros e gestão

As fontes são complementares. Um sistema pode informar quantas internações foram financiadas pelo SUS, enquanto uma pesquisa domiciliar estima quantas pessoas declararam internação, que cobertura assistencial possuíam e quais barreiras enfrentaram. Os totais não precisam coincidir: conceitos, períodos de referência, unidades e populações são diferentes.

NotaFontes complementares

Inquéritos não substituem os SIS, e os SIS não substituem inquéritos. A escolha deve começar pelo fenômeno que se deseja observar e pela população sobre a qual se pretende concluir.

E.2 Conceitos de desenho amostral

A leitura de resultados exige distinguir população-alvo, cadastro de seleção, amostra realizada e domínio de divulgação. A população-alvo é o conjunto sobre o qual a pesquisa pretende produzir inferências. O cadastro ou quadro amostral contém as unidades que podem ser selecionadas. A amostra realizada reúne as entrevistas ou atendimentos efetivamente observados.

Quadro E.3: Conceitos essenciais para análise de pesquisas amostrais
Conceito Significado Consequência analítica
Estrato Grupo dentro do qual a seleção é organizada Deve ser informado na estimação da variância
Unidade primária de amostragem Primeira unidade selecionada, frequentemente setor censitário ou conjunto de setores Observações do mesmo conglomerado não são independentes
Peso amostral Número de unidades da população representadas por uma observação, após ajustes Percentuais sem peso podem não representar a população-alvo
Domínio Subpopulação para a qual se deseja uma estimativa O tamanho efetivo pode ser insuficiente, mesmo em amostra nacional grande
Não resposta Unidade selecionada que não forneceu informação completa Pode reduzir precisão e introduzir viés se for seletiva
Erro amostral Variação decorrente de observar uma amostra em vez de toda a população Deve acompanhar estimativas por intervalo de confiança ou medida equivalente
Efeito do desenho Diferença entre a variância do plano complexo e a de uma amostra aleatória simples Ignorá-lo costuma produzir erros-padrão incorretos

Uma pesquisa nacional não produz automaticamente estimativas confiáveis para qualquer município, idade rara ou combinação de características. A divulgação territorial e temática depende dos domínios previstos, do número de observações e da precisão alcançada.

E.3 PNS

A Pesquisa Nacional de Saúde é realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde. Sua primeira edição foi a campo em 2013 para ampliar o escopo dos suplementos de saúde da PNAD. A segunda ocorreu em 2019, e a terceira edição iniciou a coleta em julho de 2026 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2026a, 2026c).

E.3.1 Objetivos e temas

A PNS produz informações sobre condições de saúde, estilos de vida, doenças crônicas, acesso e utilização de serviços, cobertura por planos, saúde bucal, saúde da mulher, saúde da pessoa idosa, deficiência, acidentes, violências e determinantes sociais. O questionário combina informações do domicílio, de todos os moradores e de um morador selecionado para módulos individuais (STOPA et al., 2020).

Quadro E.4: Edições da Pesquisa Nacional de Saúde
Edição Características selecionadas Situação dos dados
2013 Primeira edição; questionário individual para morador adulto selecionado; medidas físicas e exames laboratoriais em componentes específicos Resultados, documentação e microdados disponíveis
2019 Questionário individual para pessoa selecionada com 15 anos ou mais; novos módulos e antropometria em subamostra Resultados, documentação e microdados disponíveis, com histórico de atualizações
2026 Cerca de 140 mil domicílios; questionário individual para morador com 15 anos ou mais; pressão arterial, peso e altura; sangue e urina em subamostra de pessoas com 35 anos ou mais em capitais e regiões metropolitanas Coleta prevista de julho a novembro de 2026; resultados ainda não disponíveis

Na edição de 2026, a coleta de biomarcadores em uma subamostra de 15 mil a 20 mil participantes deverá incluir exames relacionados a perfil lipídico, hemoglobina glicada, função renal, eletrólitos, chikungunya e exposição a metais. Como a operação está em campo, tamanho realizado, perdas, pesos e documentação definitiva só poderão ser avaliados após a divulgação (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2026c).

E.3.2 Plano amostral e unidades

A PNS utiliza amostragem por conglomerados em estágios. Setores censitários ou conjuntos de setores formam unidades primárias; domicílios são selecionados dentro deles; e um morador elegível é sorteado para responder aos módulos individuais. A idade de elegibilidade e a presença de subamostras mudaram entre edições.

As informações de todos os moradores não devem ser confundidas com as do morador selecionado. Variáveis domiciliares, variáveis de moradores e respostas individuais possuem universos distintos. Medidas físicas e laboratoriais podem ter pesos próprios porque foram obtidas apenas em subamostras.

AvisoPNS 2026 em coleta

Notícias sobre o plano da PNS 2026 descrevem a operação prevista, não resultados. Não use o número anunciado de domicílios ou participantes como tamanho final da amostra realizada.

E.3.3 Principais usos e limites

A PNS é apropriada para estimar prevalências, desigualdades sociais, acesso, utilização e fatores de risco na população representada. Ela também permite comparar respostas com características do domicílio e, nos módulos aplicáveis, com aferições diretas.

Diagnósticos autorreferidos dependem de acesso prévio aos serviços e conhecimento da condição. Uma prevalência declarada de hipertensão, por exemplo, combina ocorrência, diagnóstico e memória. Medidas diretas e biomarcadores aproximam outros conceitos e podem ter universo menor.

E.4 PNAD e os suplementos de saúde

A PNAD anual foi uma pesquisa domiciliar de propósito múltiplo realizada pelo IBGE entre 1967 e 2015. Seu questionário básico investigava características demográficas, educação, trabalho, rendimento e habitação; suplementos e pesquisas especiais incorporavam temas adicionais em anos selecionados (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010, 2026b).

Questões de saúde apareceram em operações anteriores, mas a principal série comparável de suplementos amplos foi realizada em 1998, 2003 e 2008. Ela investigou autoavaliação da saúde, doenças crônicas, restrição de atividades, acesso e uso de serviços, internações, planos de saúde, saúde bucal e outros temas. A edição de 2008 ampliou fatores de risco, acidentes, violência, atividade física, tabagismo e cadastramento na Estratégia Saúde da Família (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010, 2026b).

Quadro E.5: Relação entre PNAD, PNS e PNAD Contínua
Operação Papel para a saúde Cuidado de comparabilidade
PNAD com suplementos de saúde Série domiciliar histórica, especialmente 1998, 2003 e 2008 Questionários, categorias, cobertura rural e pesos precisam ser harmonizados
PNS Pesquisa específica que ampliou o escopo da saúde a partir de 2013 Não é continuação automática de cada variável da PNAD
PNAD Contínua Pesquisa voltada principalmente à força de trabalho e a temas suplementares Não deve ser chamada de “PNAD Saúde”; módulos e períodos próprios exigem documentação específica

E.4.1 Séries históricas

Comparações de 1998, 2003 e 2008 devem usar variáveis harmonizadas e observar mudanças na abrangência da PNAD, na redação das perguntas, nas categorias de resposta, nos períodos de referência e na reponderação dos microdados. Resultados publicados pelo IBGE mostram séries harmonizadas apenas para indicadores cuja comparabilidade foi considerada possível (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010).

A PNS aprofundou temas antes investigados como suplementos, mas a semelhança do assunto não garante equivalência da medida. Mudanças no informante, na seleção do morador, no período de referência ou nas alternativas de resposta podem produzir quebras.

E.4.2 Informante direto e informante substituto

Na PNAD, uma pessoa do domicílio podia fornecer informações sobre outros moradores. Esse informante substituto, também chamado proxy, pode não conhecer diagnósticos, limitações, uso de serviços ou comportamentos de todos. A PNS reserva módulos detalhados ao morador selecionado, reduzindo parte desse problema, mas não elimina erro de memória e autorrelato.

E.5 Vigitel

O Vigitel é conduzido pelo Ministério da Saúde desde 2006 para monitorar anualmente fatores de risco e proteção para doenças crônicas entre pessoas com 18 anos ou mais. A série consolidada disponível reúne dados de 2006 a 2024 para as capitais dos 26 estados e o Distrito Federal (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025a, 2026a).

Entre os temas frequentes estão tabagismo, alimentação, atividade física, consumo de álcool, excesso de peso, obesidade e diagnóstico médico referido de doenças crônicas. O instrumento curto e a coleta telefônica favorecem oportunidade e repetição anual, mas limitam profundidade, medidas diretas e população coberta.

E.5.1 Amostragem e ponderação

Números de telefone são sorteados e pessoas adultas elegíveis são selecionadas conforme o procedimento da edição. Os pesos corrigem probabilidades de seleção, não resposta e diferenças entre a composição da amostra e a população adulta de referência. A incorporação de telefones móveis ampliou o quadro de seleção em relação ao período baseado apenas em linhas fixas (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026b).

Quadro E.6: Mudanças metodológicas relevantes do Vigitel
Período Característica metodológica Consequência para séries
2006–2019 Metodologia relativamente estável, baseada em telefonia fixa e cerca de 2 mil entrevistas por cidade como referência Forma o núcleo histórico da série, ainda dependente de ponderação para não cobertura telefônica
2020–2021 Operação afetada pela pandemia e redução de amostras; novo cadastro de linhas fornecido pela Anatel em 2021 Comparações requerem consulta às notas de cada edição
2022 Não houve coleta Não interpolar o ano como se fosse observação
2023 Operação simplificada, amostra mínima reduzida e início de entrevistas por telefone móvel Mudança do quadro de seleção e menor precisão
2024 Cerca de mil entrevistas por cidade, coleta concentrada em parte do ano, forte participação de linhas móveis e pesos atualizados com o Censo 2022 Cautela com sazonalidade, precisão e comparação direta

O relatório 2006–2024 recalculou fatores de ponderação para parte da série com projeções atualizadas a partir do Censo 2022. Por isso, valores da base e da publicação atual podem diferir de relatórios antigos. Uma análise reprodutível deve usar a versão consolidada e registrar a data de obtenção (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025a).

Em 2025, a coleta passou a incluir telefones fixos e móveis de capitais e municípios do interior. Essa expansão representa nova etapa metodológica, mas não deve ser aplicada retrospectivamente à abrangência dos dados consolidados até 2024 (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025b).

E.5.2 Principais usos e limites

O Vigitel é especialmente útil para tendências anuais de comportamentos e fatores de risco em adultos das localidades cobertas. Estimativas nacionais publicadas resultam da agregação e ponderação definidas na metodologia, não de uma amostra desenhada para representar cada município brasileiro.

Peso e altura são geralmente autorreferidos, assim como diagnóstico médico de doenças. A entrevista telefônica exclui pessoas sem acesso às linhas do quadro de seleção; ponderação reduz diferenças observáveis, mas não garante eliminação de todo viés de cobertura ou não resposta.

E.6 VIVA: sistema e inquérito

O Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), implantado em 2006, possui dois componentes. O VIVA/Sinan registra continuamente violências interpessoais e autoprovocadas notificadas pelos serviços de saúde. O VIVA Inquérito descreve atendimentos por violências e acidentes em serviços sentinela de urgência e emergência (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026c).

Quadro E.7: Componentes do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes
Componente Evento observado Fluxo Unidade de análise
VIVA/Sinan Violência interpessoal ou autoprovocada sujeita à notificação Contínuo, integrado ao SINAN Ficha de notificação ou caso registrado
VIVA Inquérito Atendimento por violência ou acidente em serviço sentinela participante Coleta periódica em turnos selecionados Atendimento realizado durante o turno amostrado

Acidentes não integram o VIVA/Sinan como um conjunto geral de notificação compulsória, mas são observados no VIVA Inquérito quando geram atendimento nos serviços participantes. Somar os dois componentes produziria duplicidade conceitual e registros com critérios diferentes.

E.6.1 Edições e seleção

O VIVA Inquérito foi realizado em 2006, 2007, 2009, 2011, 2014, 2017 e 2024. A seleção de serviços é intencional. Dentro dos serviços participantes, turnos diurnos e noturnos de 12 horas são distribuídos ao longo de um período de coleta, e os atendimentos elegíveis ocorridos nesses turnos são registrados (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026d).

Quadro E.8: Edições selecionadas do VIVA Inquérito
Edição Abrangência descrita pelo Ministério da Saúde Observação
2006 65 serviços, 34 municípios e Distrito Federal, em 23 unidades federativas Primeira edição
2011 105 serviços em 24 capitais, Distrito Federal e 11 municípios selecionados Consolidação da estratégia sentinela
2014 114 serviços em 24 capitais, Distrito Federal e 11 municípios selecionados Comparação depende da composição dos serviços
2017 121 serviços em 23 capitais, Distrito Federal e 13 municípios selecionados Última edição antes do intervalo prolongado
2024 627 serviços públicos de urgência e emergência nos estados e Distrito Federal, com exceção informada para serviços estaduais de Santa Catarina Expansão expressiva do número de serviços

E.6.2 O que os dados representam

A unidade é o atendimento, não a pessoa única. A mesma pessoa pode gerar mais de um atendimento, e eventos que não chegam aos serviços selecionados ficam fora. Como os serviços não formam uma amostra probabilística de todos os estabelecimentos do país, os resultados não devem ser convertidos em prevalência populacional de violência ou acidente.

O desenho permite caracterizar vítimas, circunstâncias, tipos de ocorrência, meios de transporte, local do evento, natureza da lesão e evolução do atendimento nos serviços e turnos abrangidos. Comparações entre edições precisam controlar mudanças de municípios, serviços, turnos e instrumentos.

AvisoVigilância sentinela

Mais atendimentos em um serviço sentinela não significam necessariamente maior risco populacional no território. Oferta, referência regional, gravidade, procura e composição dos turnos influenciam o volume observado.

E.7 Comparação entre as fontes

Quadro E.9: Escolha inicial da fonte conforme a pergunta
Pergunta Fonte inicial Por quê? Limite principal
Qual a prevalência de doença crônica ou limitação na população? PNS Inquérito domiciliar amplo, com variáveis sociais e de saúde Periodicidade longa e parte das condições autorreferida
Como evoluiu o acesso aos serviços entre 1998 e 2008? PNAD Saúde Série histórica de suplementos harmonizáveis Não prolongar automaticamente a série com PNS
Como mudaram tabagismo, obesidade ou atividade física ano a ano? Vigitel Repetição anual de indicadores padronizados Cobertura telefônica, autorrelato e mudanças recentes
Qual o perfil dos atendimentos por causas externas em urgências sentinela? VIVA Inquérito Detalha circunstâncias e lesões em atendimentos selecionados Não representa todos os serviços nem a população geral
Quantos óbitos por causa externa ocorreram? SIM Registro contínuo dos óbitos Não substitui informações circunstanciais dos inquéritos
Quantas violências foram notificadas? SINAN Registro contínuo das notificações compulsórias Notificação não mede toda violência ocorrida

Uma pergunta pode exigir mais de uma fonte. Tendências do Vigitel podem ser confrontadas com estimativas periódicas da PNS; internações declaradas na PNAD ou PNS podem ser analisadas em conjunto com o SIH/SUS; e atendimentos do VIVA Inquérito podem ser contextualizados por mortalidade do SIM e notificações do SINAN. A comparação deve preservar as definições próprias.

E.8 Pesos, desenho e variância

Microdados de pesquisas complexas não devem ser analisados como amostras aleatórias simples. Pesos produzem estimativas para a população ou universo representado; estratos e unidades primárias são necessários para estimar corretamente erros-padrão e intervalos de confiança.

Quadro E.10: Decisões essenciais na análise de amostras complexas
Decisão Procedimento adequado Erro frequente
Estimar percentual Aplicar o peso correspondente ao universo da variável Usar contagem bruta da amostra como percentual populacional
Estimar incerteza Declarar estratos e conglomerados conforme a documentação Calcular erro-padrão como se todas as pessoas fossem independentes
Analisar subgrupo Definir domínio dentro do desenho completo Excluir previamente todos os demais registros e alterar a variância
Combinar edições Verificar identificadores, estratos, pesos e documentação de cada ano Reutilizar nomes de variáveis sem conferir significado
Usar subamostra Selecionar o peso específico de antropometria ou laboratório Aplicar o peso geral a medidas coletadas em subconjunto
Publicar estimativa Informar intervalo, coeficiente de variação ou regra de precisão Divulgar estimativa instável sem advertência

O tamanho bruto da amostra não determina sozinho a precisão. Conglomeração, desigualdade dos pesos, não resposta e raridade do evento afetam o tamanho efetivo. Estimativas para grupos pequenos podem exigir agregação, supressão ou apresentação explícita de grande incerteza.

E.9 Comparabilidade temporal

Séries exigem um inventário de mudanças antes do cálculo. Nome igual não garante indicador igual, e mudança de estimativa não implica necessariamente mudança real da população.

Quadro E.11: Fontes de quebra em séries temporais
Fonte de quebra Exemplo Estratégia
Redação da pergunta Diagnóstico “por médico” versus “por médico ou profissional de saúde” Restringir a categorias comparáveis ou marcar a quebra
Universo Todos os moradores versus morador selecionado de determinada idade Recalcular no mesmo grupo elegível
Período de referência Duas semanas, 12 meses ou alguma vez na vida Não combinar medidas sem equivalência
Quadro amostral Telefonia fixa versus inclusão de celular Usar notas metodológicas e análise de sensibilidade
Peso Nova projeção populacional ou reponderação Preferir versão consolidada e registrar revisão
Serviços participantes Mudança de hospitais no VIVA Inquérito Comparar subconjunto estável ou interpretar como edições distintas
Modo de resposta Informante substituto versus resposta direta Discutir viés e evitar continuidade automática

Ao empilhar microdados, preserve uma variável de edição e mantenha os dicionários originais. A harmonização deve ser documentada em uma tabela de correspondência com pergunta, universo, categorias e regra de recodificação.

E.10 Autorrelato, informante substituto e medidas diretas

PNS, PNAD e Vigitel dependem amplamente de respostas. Autorrelato é apropriado para percepção, comportamento e experiência, mas está sujeito a memória, compreensão e desejabilidade social. Diagnóstico referido também depende de acesso e comunicação com profissionais.

Informação fornecida por outra pessoa do domicílio pode ser adequada para idade ou escolaridade, mas menos precisa para dor, saúde mental, violência, consumo de álcool ou uso de serviço. A identidade do respondente e a possibilidade de resposta reservada influenciam temas sensíveis.

Medidas diretas, como peso, altura, pressão arterial e biomarcadores, reduzem alguns erros de autorrelato, mas introduzem outros: calibração, protocolo, jejum, perda seletiva e peso específico da subamostra. “Medido” não significa ausência de erro.

E.11 Integração com os SIS

Inquéritos públicos geralmente não incluem identificadores pessoais que permitam ligação direta com registros administrativos. A integração mais comum ocorre por grupos, território e período ou em ambientes institucionais autorizados, com proteção de dados.

Quadro E.12: Complementaridade entre inquéritos e sistemas de informação
Inquérito SIS complementar Possibilidade de análise Cuidado
PNS ou PNAD SIH/SUS Comparar internação declarada e produção financiada pelo SUS População, cobertura privada, período e unidade diferem
PNS ou PNAD SIA/SUS Contextualizar uso ambulatorial e barreiras de acesso Procedimento não equivale a pessoa que declarou atendimento
Vigitel ou PNS SIM Relacionar tendências de fatores de risco e mortalidade Associação temporal agregada não demonstra causalidade individual
Vigitel ou PNS Siaps Comparar fatores de risco e ações da atenção primária Cobertura geográfica e populações observadas são diferentes
VIVA Inquérito SIM Contrastar perfil de atendimentos e óbitos por causas externas Gravidade e seleção de casos são distintas
VIVA/Sinan SINAN É o próprio fluxo contínuo de notificação de violências Não confundir com a amostra de atendimentos do VIVA Inquérito

Resultados agregados podem revelar coerência, divergência ou lacunas entre fontes. Eles não autorizam somar pessoas, atendimentos e registros como se fossem a mesma unidade. Quando houver relacionamento nominal, protocolo, base legal, segurança e avaliação da qualidade dos identificadores são indispensáveis.

E.12 Acesso aos dados

E.12.1 Acesso à PNS

A página da PNS, mantida pelo IBGE, reúne resultados, questionários, documentação, microdados e históricos de atualização das edições de 2013 e 2019. As informações sobre a coleta de 2026 estão na notícia publicada pelo instituto (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2026a, 2026c).

E.12.2 Acesso à PNAD

O portal de suplementos da PNAD e seu repositório de arquivos oferecem publicações, microdados, questionários e dicionários. Para 2008, o material está reunido na documentação da PNAD 2008 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2026b).

E.12.3 Acesso ao Vigitel

O Ministério da Saúde disponibiliza a base consolidada do Vigitel de 2006 a 2024 em CSV e DTA, além de dicionário, orientações e nota metodológica. O relatório de 2006 a 2024 também está disponível (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025a, 2026a).

E.12.4 Acesso ao VIVA Inquérito

A página do VIVA Inquérito reúne histórico, metodologia, relatórios e acesso às tabulações. A distinção entre o inquérito e o componente contínuo está registrada na documentação sobre vigilância de violências e acidentes (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026d, 2026c).

E.13 Cuidados de interpretação

  • Diferencie pessoa, domicílio, linha telefônica, atendimento e ficha de notificação;
  • Identifique a população-alvo e o quadro de seleção;
  • Use peso, estrato e unidade primária conforme a documentação;
  • Não trate amostra nacional como representativa de todo município;
  • Informe intervalo de confiança ou outra medida de precisão;
  • Separe resposta direta, informante substituto e medida aferida;
  • Verifique idade elegível e universo de cada módulo;
  • Harmonize perguntas, categorias e períodos antes de construir tendências;
  • Considere a ausência de coleta do Vigitel em 2022;
  • Marque as mudanças de telefonia e ponderação do Vigitel;
  • Não transforme o VIVA Inquérito em prevalência populacional;
  • Não confunda VIVA Inquérito com VIVA/Sinan;
  • Trate dados da PNS 2026 como operação em coleta, não como resultados;
  • Registre versão, dicionário, data de extração e regras de recodificação.

E.14 Checklist final

Antes de publicar uma análise, verifique se:

  • A fonte responde à pergunta proposta;
  • A unidade de observação foi declarada;
  • A população-alvo e as exclusões estão descritas;
  • O peso corresponde ao módulo ou subamostra usados;
  • Estratos e conglomerados entraram na estimação da variância;
  • O domínio possui tamanho e precisão suficientes;
  • Não resposta e dados ausentes foram examinados;
  • Perguntas respondidas por informante substituto foram identificadas;
  • Medidas autorreferidas e aferidas não foram misturadas;
  • A edição e a versão dos microdados foram registradas;
  • Quebras metodológicas foram marcadas na série;
  • Comparações com SIS respeitam cobertura, período e unidade;
  • Resultados instáveis foram suprimidos ou acompanhados de advertência;
  • As limitações aparecem nas conclusões.

E.15 Bibliografia recomendada

E.15.1 PNS e PNAD

E.15.2 Vigitel e VIVA

E.16 Veja também