Apêndice I — Interoperabilidade entre os Sistemas de Informação em Saúde
Os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) brasileiros foram criados em épocas distintas, por áreas técnicas diferentes e para finalidades próprias. SIM, SINASC, SIH/SUS, SIA/SUS, SINAN, CNES, SISAB, SI-PNI e outros sistemas não compartilham necessariamente a mesma arquitetura, os mesmos conceitos ou os mesmos identificadores. Ainda assim, o cuidado, a vigilância e a gestão precisam combinar informações produzidas nesses ambientes. A interoperabilidade e o relacionamento de registros são duas respostas complementares a esse problema, mas atuam em momentos e de maneiras diferentes.
I.1 O que é interoperabilidade
Interoperabilidade é a capacidade de dois ou mais sistemas trocarem informações e utilizarem corretamente o que foi recebido. Não basta transportar um arquivo de um ponto a outro: o sistema receptor precisa reconhecer sua estrutura, compreender o significado dos campos, preservar o contexto do registro e empregar a informação de acordo com regras institucionais, jurídicas e assistenciais.
No SUS, a regulamentação distingue a interoperabilidade sintática da semântica. A primeira trata dos modelos e das técnicas computacionais que permitem a troca padronizada entre sistemas, redes e plataformas. A segunda depende de modelos de informação e de vocabulários padronizados — terminologias, classificações, taxonomias e ontologias — que preservem o significado para as pessoas e instituições envolvidas (BRASIL, 2017). Na prática, há ainda dimensões organizacional e jurídica: os participantes precisam definir responsabilidades, finalidades, fluxos, perfis de acesso, segurança, auditoria e resposta a incidentes (ver Quadro I.1).
| Dimensão | Pergunta central | Exemplos nos SIS |
|---|---|---|
| Técnica | Os sistemas conseguem conectar-se e transmitir os dados? | Interfaces, autenticação, APIs e infraestrutura de rede |
| Sintática | A mensagem recebida tem estrutura conhecida? | Recursos FHIR, formatos de data, cardinalidade e campos obrigatórios |
| Semântica | O dado tem o mesmo significado na origem e no destino? | CID para diagnósticos, LOINC para observações laboratoriais e SIGTAP para procedimentos |
| Organizacional | Os processos e as responsabilidades estão articulados? | Definição de quem registra, envia, corrige, consulta e audita |
| Jurídica e ética | O intercâmbio tem finalidade e base legal adequadas? | Controle de acesso, minimização, rastreabilidade e proteção de dados pessoais |
As dimensões se acumulam. Uma mensagem pode chegar ao destino e ser sintaticamente válida, mas conter um código usado com significado diferente pelo serviço de origem. Também pode ser tecnicamente e semanticamente correta, mas ter sido consultada por um perfil sem autorização para aquela finalidade. A interoperabilidade efetiva só ocorre quando todas as dimensões necessárias ao uso estão presentes.
Integração permite que sistemas se conectem. Interoperabilidade acrescenta a capacidade de usar corretamente a informação trocada, com significado preservado e governança definida.
I.2 Aplicação aos SIS
Em sistemas isolados, cada área recebe arquivos, interpreta leiautes próprios, mantém tabelas auxiliares e cria rotinas particulares de importação. Esse arranjo amplia o custo de manutenção e favorece divergências. Com padrões comuns, um sistema local pode representar um atendimento, uma vacina ou um resultado laboratorial de modo que outros componentes autorizados reconheçam o registro sem uma tradução construída exclusivamente para cada par de sistemas.
A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), apresentada na Capítulo 16, é a plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde. Ela conecta sistemas de saúde e estabelece uma infraestrutura para o compartilhamento padronizado, com acesso aos dados individuais condicionado ao perfil e à finalidade (BRASIL, 2026b). Modelos como o Registro de Atendimento Clínico (RAC), o Resultado de Exames Laboratoriais (REL), o Registro de Imunobiológico Administrado (RIA) e o Modelo de Informação da Regulação Assistencial (MIRA) organizam tipos específicos de informação. Sua representação computacional emprega o padrão FHIR e terminologias controladas conforme o contexto (BRASIL, 2026c).
Uma integração desse tipo pode fazer com que uma vacina registrada em um sistema de origem seja consultada pelo cidadão e por um profissional autorizado, ou que uma informação de regulação seja transmitida à RNDS segundo um modelo nacional. O identificador da pessoa, do estabelecimento e do profissional; as datas do evento e do envio; os códigos clínicos; e as versões do documento precisam conservar seu significado durante o percurso.
A interoperabilidade não elimina os sistemas finalísticos nem corrige automaticamente seus problemas. Se um diagnóstico foi registrado de maneira imprecisa, se o CNS foi associado à pessoa errada ou se o estabelecimento não enviou o evento, a troca padronizada pode apenas transportar ou tornar mais visível o problema original. Também não garante cobertura nacional uniforme: sistemas, modelos, territórios e serviços podem estar em estágios distintos de integração.
Além da integração de pessoas e eventos assistenciais, há interoperabilidade entre cadastros e objetos administrativos. O código do CNES permite associar produção ambulatorial, internações e características do estabelecimento; códigos municipais permitem combinar eventos e denominadores territoriais; e terminologias comuns aproximam diagnósticos, exames e procedimentos. Essas junções por estabelecimento, território ou código não são necessariamente um relacionamento de pessoas.
I.3 O que é linkage
Linkage, ou relacionamento de registros, é o processo de identificar quais registros de uma ou mais bases se referem à mesma entidade do mundo real. A entidade pode ser uma pessoa, um estabelecimento, um episódio assistencial, uma gestação ou outro objeto de interesse. O termo costuma ser empregado para o relacionamento de pessoas quando não existe, não está disponível ou não é confiável uma chave única comum às bases.
O relacionamento pode unir bases diferentes, como SIM e SINASC, ou procurar duplicidades dentro da mesma base. No primeiro caso, permite acrescentar informações sobre a trajetória de uma pessoa ou de um evento; no segundo, ajuda a identificar registros repetidos. O resultado não deve ser entendido automaticamente como verdade: trata-se de uma classificação de pares ou conjuntos de registros, sujeita a falsos positivos e falsos negativos.
Interoperabilidade e linkage se distinguem sobretudo pelo momento e pelo mecanismo. A interoperabilidade organiza a troca entre sistemas, em geral no fluxo operacional, com contratos de informação e identificadores definidos. O linkage costuma atuar depois da produção dos dados, comparando registros que já existem. Uma arquitetura interoperável pode reduzir a necessidade de inferir identidades, mas não elimina o relacionamento de bases históricas, sistemas legados ou registros com identificadores ausentes e incorretos (ver Quadro I.2).
| Aspecto | Interoperabilidade | Linkage |
|---|---|---|
| Problema principal | Trocar e usar informações entre sistemas | Reconhecer registros da mesma entidade |
| Momento típico | Durante o fluxo de registro, envio e consulta | Depois que as bases foram produzidas ou extraídas |
| Mecanismo | Padrões, modelos, terminologias, interfaces e governança | Chaves, regras de comparação, escores e classificação de pares |
| Resultado | Informação compreensível e utilizável pelo sistema receptor | Base relacionada, chave de vínculo ou conjunto de pares |
| Erro característico | Falha de transmissão, mapeamento ou interpretação | Falso pareamento ou perda de um par verdadeiro |
| Relação entre ambos | Identificadores e semântica comuns facilitam o relacionamento | Pode recompor vínculos que a integração não produziu |
I.4 Principais métodos de relacionamento
I.4.1 Relacionamento determinístico
O método determinístico aplica regras explícitas. A forma mais simples exige igualdade em um identificador único confiável, como uma chave gerada e compartilhada pelos sistemas. Quando essa chave não existe, podem ser usadas combinações de campos, como nome, data de nascimento, nome da mãe e município de residência. É comum executar passos sucessivos: começa-se por uma regra estrita e, nos registros ainda não pareados, aplicam-se combinações alternativas.
O método é transparente, reproduzível e pode alcançar alta precisão quando os identificadores são completos e bem preenchidos. Em contrapartida, um erro de digitação, mudança de nome, data incompleta ou ausência de campo pode impedir o pareamento verdadeiro. Regras excessivamente flexíveis também podem unir pessoas diferentes, sobretudo quando os valores são frequentes.
I.4.2 Relacionamento probabilístico
O método probabilístico considera que concordâncias e discordâncias têm poderes distintos de identificação. Concordar em um sobrenome raro tende a ser mais informativo do que concordar em um nome muito frequente; uma pequena diferença ortográfica pode ser compatível com o mesmo indivíduo, enquanto datas muito divergentes oferecem evidência contrária. No modelo clássico de Fellegi e Sunter, as comparações recebem pesos segundo sua ocorrência esperada entre pares verdadeiros e não verdadeiros, produzindo um escore para classificar os pares (FELLEGI; SUNTER, 1969).
Como comparar todos os registros de duas bases pode gerar um número impraticável de combinações, aplica-se a blocagem: somente pares que concordam em uma ou mais características iniciais seguem para comparação detalhada. Os pares com escore alto são aceitos, os de escore baixo são rejeitados e uma faixa intermediária pode ser submetida a revisão manual. O método tolera melhor erros e variações, mas depende de boa preparação, escolha das variáveis, parâmetros, limiares e validação.
I.4.3 Estratégias híbridas e métodos de classificação
Na prática, muitos projetos combinam abordagens. Pares de alta confiança são obtidos por regras determinísticas; os registros restantes passam por comparações aproximadas de texto, tolerância em datas e um modelo probabilístico. Métodos de aprendizado de máquina também podem classificar pares a partir de exemplos previamente rotulados. Eles são úteis em bases volumosas ou com padrões complexos, mas a qualidade depende do conjunto de treinamento e da estabilidade desses padrões em outros períodos e populações.
O relacionamento com preservação de privacidade transforma ou codifica identificadores antes da comparação e pode empregar resumos criptográficos, filtros de Bloom ou protocolos seguros entre instituições. Essas técnicas reduzem a exposição direta dos identificadores, mas não tornam o processo isento de risco nem dispensam governança. Parâmetros inadequados podem reduzir a qualidade do pareamento, e valores pseudonimizados continuam sujeitos à proteção de dados quando podem ser associados a uma pessoa por informação adicional (BRASIL, 2018; SCHNELL; BACHTELER; REIHER, 2009) (ver Quadro I.3).
| Método | Como decide | Vantagem | Limitação principal |
|---|---|---|---|
| Determinístico por chave | Igualdade em identificador comum | Simples e preciso quando a chave é confiável | Falha com chaves ausentes, erradas ou indisponíveis |
| Determinístico por regras | Igualdade em combinações sucessivas de campos | Transparente e fácil de auditar | Sensível a erros e à escolha das regras |
| Probabilístico | Peso das concordâncias e discordâncias | Acomoda variações e dados incompletos | Exige parametrização, limiares e validação |
| Híbrido | Regras estritas seguidas de comparação aproximada | Aproveita pares fáceis e concentra esforço nos difíceis | Fluxo mais complexo e dependente da ordem das etapas |
| Aprendizado de máquina | Classificador treinado com pares rotulados | Pode representar padrões complexos e operar em escala | Depende de exemplos confiáveis e pode perder desempenho em outro contexto |
| Preservação de privacidade | Compara representações protegidas dos identificadores | Reduz o compartilhamento de identificadores em claro | Não elimina risco, erros nem obrigações legais |
I.5 Etapas de um linkage
Antes da comparação, é necessário definir a entidade, a população elegível e a relação esperada. Um óbito infantil deve encontrar no máximo uma declaração de nascido vivo correspondente, mas uma pessoa pode ter várias internações ou notificações. A cardinalidade esperada — um para um, um para muitos ou muitos para muitos — orienta o algoritmo e a avaliação dos resultados.
Definir a finalidade e a população. Delimitar a pergunta, o período, os sistemas, os critérios de inclusão e a unidade relacionada.
Preparar os campos. Padronizar caracteres, espaços, datas e códigos; separar componentes quando necessário; e preservar as versões originais para auditoria.
Avaliar os identificadores. Medir completude, validade, frequência, estabilidade e distribuição dos valores em cada fonte.
Gerar pares candidatos. Usar chaves ou blocagem para reduzir as comparações sem descartar uma parcela excessiva de pares verdadeiros.
Comparar e classificar. Aplicar regras, funções de similaridade, pesos ou classificadores e registrar a evidência que levou a cada decisão.
Resolver conflitos. Examinar empates, relações incompatíveis com a cardinalidade esperada e pares situados na faixa de dúvida.
Validar. Estimar precisão, sensibilidade e taxas de falsos positivos e falsos negativos com amostra revisada, padrão de referência ou análises de consistência.
Documentar e proteger. Registrar versões das bases, parâmetros, limiares, decisões manuais, incerteza e medidas de segurança; divulgar somente o necessário para a finalidade.
Os erros não são apenas técnicos. Um falso positivo atribui a uma pessoa o evento de outra; um falso negativo fragmenta sua trajetória. Se a probabilidade de erro variar por idade, raça/cor, território ou qualidade do preenchimento, o relacionamento pode introduzir viés diferencial. Por isso, relatar apenas a quantidade de pares encontrados é insuficiente.
I.6 Exemplos com SIS brasileiros
O relacionamento entre SIM e SINASC permite recuperar informações do nascimento de crianças que morreram antes de completar um ano, melhorar a completude de variáveis comuns e estudar fatores associados à mortalidade infantil. Em cinco cidades brasileiras, um estudo relacionou 90% dos óbitos infantis às respectivas declarações de nascido vivo; 74,5% dos pares foram obtidos na etapa determinística, e a etapa probabilística contribuiu para os demais (MAIA; SOUZA; MENDES, 2015). O exemplo mostra por que estratégias sequenciais são úteis: chaves e regras resolvem os pares mais claros, enquanto métodos tolerantes a erros recuperam parte dos restantes.
O Ministério da Saúde recomenda o relacionamento entre SIH/SUS e SIM como uma das estratégias para qualificar registros inespecíficos de mortes por causas externas. As informações da internação podem apoiar a investigação da circunstância do óbito, mas não devem substituir de forma automática o que foi atestado; inconsistências exigem exame das fontes e, quando necessário, investigação adicional (BRASIL, 2023).
Outras combinações respondem a perguntas distintas. SINAN e SIM podem identificar óbitos entre casos notificados e contribuir para avaliar encerramento e subnotificação. SIH/SUS e SIA/SUS podem recompor partes da utilização de serviços ao longo do tempo quando há identificadores adequados. SISAB, SI-PNI ou sistemas laboratoriais podem ser relacionados para investigar continuidade do cuidado, vacinação e resultados de exames. Em todos esses casos, cobertura, população-alvo e finalidade administrativa dos sistemas permanecem diferentes; encontrar a mesma pessoa não torna os eventos diretamente equivalentes.
Também há relacionamentos que não envolvem pessoas. O CNES conecta produção e características dos estabelecimentos, códigos municipais permitem integrar indicadores territoriais e códigos de procedimentos ou diagnósticos aproximam tabelas de sistemas diferentes. Esses vínculos costumam ser determinísticos, mas ainda exigem atenção a mudanças de código, vigência temporal e relações de muitos para muitos.
I.7 Dados públicos e bases institucionais
Os dados disseminados ao público não são uma cópia integral das bases operacionais. Para proteger o sigilo e cumprir a legislação, produtos públicos podem retirar identificadores diretos, suprimir ou agrupar categorias, reduzir precisão de datas e localização, selecionar variáveis ou divulgar apenas agregados. No caso do SIM, o Ministério da Saúde informa expressamente que as bases públicas são anonimizadas e que campos pessoais e sensíveis são removidos antes da oferta para tabulação e obtenção de microdados (BRASIL, 2026a). Outros SIS adotam produtos e procedimentos próprios, que precisam ser verificados em cada fonte e versão.
As secretarias de saúde e o Ministério da Saúde podem dispor, conforme sua competência, finalidade, perfil e autorização, de dados identificados ou mais detalhados necessários à assistência, vigilância, regulação, auditoria e gestão. Isso não significa acesso irrestrito por qualquer servidor nem uma base perfeita e universalmente “completa”. Os sistemas têm fluxos descentralizados, versões, retificações, atrasos e campos não preenchidos; o acesso deve observar necessidade, base legal, segurança, rastreabilidade e responsabilização. A LGPD classifica dados de saúde como pessoais sensíveis e disciplina seu tratamento e uso compartilhado (BRASIL, 2018) (ver Quadro I.4).
| Característica | Produto público | Base de acesso institucional |
|---|---|---|
| Finalidade predominante | Transparência, estatística, pesquisa e controle social | Assistência, vigilância, gestão, regulação e funções legais |
| Identificação de pessoas | Removida, anonimizada ou não disponibilizada | Pode existir quando necessária e autorizada |
| Detalhamento | Pode haver seleção, recodificação, agrupamento ou supressão | Pode conservar campos operacionais e maior granularidade |
| Atualização | Segue calendário e versão de disseminação | Pode acompanhar fluxos preliminares, correções e consolidações |
| Acesso | Aberto ou sujeito às condições do portal | Controlado por perfil, finalidade, órgão e ambiente |
| Possibilidade de linkage individual | Limitada pelos campos divulgados e pelo risco de reidentificação | Maior quando há identificadores e base legal para o relacionamento |
A retirada de identificadores afeta diretamente o linkage. Sem uma chave comum, o relacionamento determinístico individual pode tornar-se impossível; sem nomes, datas completas ou localização detalhada, o probabilístico perde poder de discriminação. Ainda pode ser possível integrar dados em nível agregado — por município, estabelecimento, período ou categoria — mas isso responde a perguntas ecológicas e administrativas, não recompõe trajetórias individuais.
Por outro lado, a presença de identificadores nas bases institucionais permite vínculos mais precisos e pode reduzir pares duvidosos. Padrões de interoperabilidade ajudam a estabilizar identificadores, datas, códigos e significados entre sistemas. Se o dado original estiver errado ou ausente, contudo, um identificador comum também pode propagar uma associação incorreta. Bases históricas e sistemas legados continuarão demandando rotinas de linkage, mesmo em um ambiente mais interoperável.
Um dado pode circular entre sistemas autorizados e permanecer protegido. Interoperabilidade define como a informação é trocada e compreendida; dados abertos definem o que pode ser divulgado ao público. Uma condição não implica a outra.
I.8 Privacidade, segurança e uso responsável
Relacionar bases aumenta o valor analítico, mas também pode aumentar o risco informacional. A combinação de datas, eventos raros, pequenos territórios e trajetórias assistenciais pode distinguir uma pessoa mesmo quando nome e CPF foram retirados. Por isso, anonimização não deve ser confundida com simples remoção de identificadores, e pseudonimização não deve ser tratada como autorização automática para divulgar ou reutilizar dados.
O princípio da necessidade orienta a seleção do menor conjunto de dados suficiente para a finalidade. Identificadores devem ser separados dos dados analíticos quando possível; chaves de vínculo precisam ser protegidas; acessos e decisões devem ser auditáveis; resultados com pequenas contagens ou trajetórias singulares exigem controle de divulgação; e arquivos intermediários devem ter retenção definida. O compartilhamento entre órgãos também precisa explicitar objeto, finalidade, base legal, responsabilidades e medidas de segurança.
A qualidade metodológica e a proteção de dados são inseparáveis. Um projeto bem governado não apenas restringe o acesso: ele documenta por que o relacionamento é necessário, mede seus erros, preserva a rastreabilidade sem expor identidades e limita a divulgação ao que sustenta a finalidade pública. Interoperabilidade confiável e linkage responsável ampliam a capacidade de compreender trajetórias, qualificar registros e coordenar o cuidado sem transformar circulação técnica em acesso indiscriminado.
I.9 Síntese
Interoperabilidade permite que sistemas troquem e usem dados com estrutura, significado e governança comuns. Linkage identifica registros da mesma entidade em bases já produzidas, por chaves, regras, probabilidades ou métodos de classificação. Identificadores e padrões compartilhados aproximam as duas práticas: melhor interoperabilidade torna o relacionamento mais simples e preciso, enquanto o linkage ajuda a integrar o legado e a lidar com falhas de identificação.
A possibilidade concreta de relacionamento depende da versão dos dados. Bases institucionais podem conservar identificadores e detalhes necessários às funções do SUS, sob controle de acesso; produtos públicos são preparados para disseminação e podem não conter os campos necessários ao vínculo individual. Portanto, resultados obtidos com microdados públicos não devem ser generalizados para o que seria possível nos ambientes autorizados, e a maior capacidade técnica desses ambientes não dispensa finalidade, proteção, validação e transparência metodológica.
I.10 Veja também
RNDS — Rede Nacional de Dados em Saúde — seção “FHIR, terminologias e semântica”. Na edição impressa, p. 347.
Eventos de saúde — seção “Relacionamento entre sistemas”. Na edição impressa, p. 62.
ANS — Agência Nacional de Saúde Suplementar — seção “Integração com dados dos SIS”. Na edição impressa, p. 442.
SISCAN — Sistema de Informação do Câncer — seção “Painel Oncologia”. Na edição impressa, p. 225.