Prefácio do autor
Existem muitos materiais sobre os Sistemas de Informação em Saúde no Brasil. Manuais de preenchimento, notas técnicas, dicionários de dados, portarias, páginas institucionais, artigos científicos, apresentações e orientações produzidas por equipes gestoras registram partes importantes de sua história e de seu funcionamento. O problema não é apenas encontrar informação, mas reunir peças dispersas, publicadas em épocas e formatos diferentes, distinguir o que ainda está vigente e compreender como uma mudança normativa ou tecnológica afeta o dado disponível para análise.
Essa dificuldade se tornou especialmente clara para mim durante a criação e a manutenção do pacote microdatasus para o R, desenvolvido para facilitar o acesso aos microdados públicos do DATASUS e sua preparação para análise. Ao longo do tempo, passei a receber muitas perguntas de usuários do pacote. Uma parte delas dizia respeito ao código, à instalação ou ao uso de funções. Muitas outras, embora chegassem como dúvidas sobre o microdatasus, eram na realidade perguntas sobre os próprios sistemas: qual arquivo escolher, o que cada registro representa, por que determinada variável muda entre anos, quais datas definem uma competência, como interpretar duplicidades, diferenças de cobertura ou alterações no fluxo de informação.
Essas perguntas mostraram que facilitar o acesso técnico aos arquivos é apenas uma parte do trabalho. Para analisar um SIS, é preciso conhecer o evento que ele registra, a finalidade administrativa ou epidemiológica que orientou sua criação, os instrumentos de coleta, os fluxos entre serviços e esferas de gestão, as regras de processamento e as transformações acumuladas ao longo do tempo. Sem esse contexto, um banco de dados aparentemente simples pode levar a comparações inadequadas e a conclusões que os registros não sustentam.
O ponto de partida deste livro foi uma necessidade muito concreta. Enquanto eu estudava para o concurso público de pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, comecei a compilar um material de estudo sobre os principais SIS brasileiros. Reuni conceitos, marcos históricos, documentos institucionais, formas de acesso e observações metodológicas que estavam espalhados em diversas fontes. As notas cresceram, ganharam organização e se transformaram primeiro em um livro publicado na internet, aberto à consulta e à atualização. A obra que o leitor tem agora em mãos é o passo seguinte desse percurso: uma versão impressa, revista e organizada para uma leitura contínua.
A passagem da tela ao papel exigiu mais do que transpor páginas. A edição impressa favorece a visão de conjunto, a leitura sequencial e a consulta concentrada; a edição online permite acompanhar atualizações, acessar bases, ferramentas e documentos externos e explorar materiais que não caberiam no volume. Por isso, as duas versões foram concebidas como complementares. Códigos QR indicados ao longo dos capítulos mantêm a ligação entre elas.
Este livro não pretende encerrar a descrição dos SIS, tarefa impossível diante de sistemas que continuam a mudar. Seu propósito é oferecer um mapa: apresentar origens, conceitos, estruturas, usos e cuidados de interpretação, aproximando documentos técnicos da prática de estudantes, profissionais, gestores e pesquisadores. Espero que a leitura ajude não apenas a localizar dados, mas a formular perguntas melhores sobre como eles são produzidos e sobre o que podem — e o que não podem — dizer a respeito da saúde da população e do funcionamento do SUS.
Raphael de Freitas Saldanha
Rio de Janeiro, agosto de 2026